Criada há 40 anos para fortalecer a ciência mineira, a Fapemig consolidou, ao longo dos anos, uma relação estratégica com a Fundep, que hoje é referência em gestão e execução de projetos de pesquisa no País.
Maria Carolina Martins
Fundação é responsável por incentivar e apoiar o avanço da ciência, da tecnologia e da inovação no Estado.
Foto: Divulgação/Fapemig.
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Com 1.438 projetos gerenciados em 2023, envolvendo 1.221 coordenadores e um volume de R$ 58 milhões executados, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) consolidou-se como uma das principais financiadoras de projetos geridos pela Fundep. Em 2024, os dados continuaram expressivos: foram 1.428 projetos sob gestão da Fundação, que somaram R$ 79,4 milhões em recursos e beneficiaram 1.092 coordenadores. É a maior carteira de projetos entre todas as unidades do Centro Integrado de Atendimento, reforçando a relevância estratégica da instituição para o fomento da pesquisa em Minas Gerais.
Criada pela Lei Delegada nº 10, publicada em 28 de agosto de 1985 com a finalidade de promover atividades de incentivo e fomento à pesquisa científica em Minas Gerais, a Fapemig injetou cerca de R$ 5 bilhões na área em 40 anos de atuação. Só a Fundep geriu mais de R$ 500 milhões desses recursos, atendendo pesquisadores da UFMG e outras instituições de ciência e tecnologia mineiras.
“A Fapemig compreendeu a importância das fundações de apoio na gestão dos projetos que financia.”
– Paulo Sérgio Lacerda Beirão, ex-integrante do Conselho Curador Fundep e ex-presidente da Fapemig
O relacionamento Fundep-Fapemig iniciou-se em meio a um dos períodos mais críticos da história das universidades brasileiras, na década de 1980, quando as instituições enfrentavam escassez de recursos federais, cortes orçamentários e incertezas quanto ao investimento em pesquisa científica.
Seguindo o exemplo de São Paulo e Rio Grande do Sul, que tinham fundações estaduais de amparo desde a década de 1960, e do Rio de Janeiro, que criou a sua FAP em 1980, Minas Gerais apostou na criação de instituição voltada para o fortalecimento da produção científica e acadêmica. Em menos de 10 anos a Fapemig se consolidou como uma das principais financiadoras de pesquisas da UFMG e de outras instituições de ensino e pesquisa mineiras e ainda jovem tornou-se reconhecida nacionalmente por sua contribuição à capacitação técnica e científica.
Jornal UFMG Informativo da Universidade Nº 929/14-08-92.
Relatórios de gestão da época registram uma história de relevância da Fapemig para a pesquisa na UFMG. Em 1991, 38,8% dos recursos geridos pela Fundep já eram provenientes da Fapemig e, em 1995, a fundação de amparo mineira já estava entre as três principais financiadoras de projetos apoiados pela Fundep, com 163 contratos firmados.
Convênios/contratos firmados em 1995, segundo Relatório de Gestão do ano.
No que se refere à pesquisa na Universidade, é importante ressaltar o impacto que a Fapemig tem na criação e consolidação de inúmeros grupos de pesquisa não só na UFMG mas também em outras instituições em todo o estado. Situada no contraponto do apoio institucional, mantido pela Finep a década de 1970, que concentrava muitos recursos em poucos programas, a contribuição da Fapemig à pesquisa é, também, muito importante, exatamente à medida que busca desconcentrar recursos para contemplar um número maior de projetos.
Modelo mineiro de fomento e gestão se destaca no cenário nacional
Paulo Sérgio Lacerda Beirão, ex-integrante do Conselho Curador Fundep e ex-presidente da Fapemig.
Foto: Divulgação/Fapemig.
De acordo com o professor Paulo Sérgio Lacerda Beirão – que foi docente do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto (ICB), membro do Conselho Curador da Fundep e que presidiu a Fapemig entre 2020 e 2023 – a Fapemig foi “possivelmente, a primeira agência de fomento no País a compreender a importância das fundações de apoio na gestão dos projetos que financia. Essa parceria reduz significativamente os riscos de erros na gestão financeira e facilita o trabalho dos pesquisadores”.
Mesmo quando a contratação de uma fundação de apoio não era obrigatória para que o pesquisador recebesse recursos de uma fundação de amparo, a Fapemig já previa, por meio da rubrica de ‘despesas operacionais’, a possibilidade de incluir o pagamento desse serviço. “Foi uma experiência extremamente exitosa e, ao longo dos anos, aprimoramos esse modelo, realizando ajustes para fortalecer ainda mais essa relação. Como resultado, diversas fundações surgiram, especialmente nas universidades federais de Minas Gerais, e a Fundep tem se destacado como um exemplo organizacional de excelência nesse cenário”, completa.
Entre 2020 e 2023, a relação entre a Fapemig e a Fundep ganhou ainda mais relevância. Nesse período, a Fapemig registrou um aumento recorde de investimentos em bolsas, com orçamento superior a R$ 430 milhões em 2023, o maior de sua história. Beirão destaca a relevância do trabalho conjunto com a Fundep para garantir a boa execução dos projetos. “O apoio da Fundep foi fundamental, especialmente no período da pandemia, quando diversos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) precisaram adaptar suas atividades para contribuir no enfrentamento à covid-19. A atuação ágil e precisa da Fundação evitou erros, garantiu a execução adequada dos recursos e permitiu que os projetos mantivessem sua efetividade”, afirma.
O professor ressalta, ainda, o papel essencial da fundação na gestão contínua destes Institutos, que envolve volume significativo de recursos e demanda acompanhamento especializado. “Esse suporte é fundamental para que o pesquisador não precise se preocupar com todo o processo de despesas e gestão, o que contribui para o bom andamento e execução dos INCTs”, completa.
Um desses exemplos é o INCT em Inibidores de Urease, coordenado pelo professor Ângelo de Fátima, do Departamento de Química da UFMG, que recebe financiamento da Fapemig e apoio financeiro e administrativo da Fundep. O objetivo do projeto é atuar em saúde e agricultura por meio de um trabalho multidisciplinar que desenvolve fertilizantes nitrogenados mais eficazes e sustentáveis. “O financiamento da Fapemig no nosso projeto tem garantido a infraestrutura necessária, financiando a manutenção de laboratórios, a aquisição de equipamentos e insumos essenciais. Além disso, tem investido na formação de recursos humanos, oferecendo bolsas para estudantes e pesquisadores em áreas estratégicas como síntese química, enzimologia e farmacologia”, completa.
O professor Ângelo também destaca o papel fundamental da Fundep na continuidade do projeto. “Esse suporte estratégico da Fundação é mais do que um apoio administrativo: ele nos dá tranquilidade e segurança para que possamos focar integralmente na pesquisa. É isso que potencializa o impacto científico e social do nosso trabalho. Com essa base sólida, o Instituto avança não apenas na produção de conhecimento de excelência, mas também na formação de profissionais altamente qualificados e no desenvolvimento de soluções inovadoras que respondem a necessidades reais da sociedade e do mercado”, completa.
Além da UFMG, a Fundep apoia projetos Fapemig de outras instituições, como a Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Um desses projetos é o de internacionalização ativa da pós-graduação, coordenado pelo professor André de Oliveira Baldoni, pró-reitor de pesquisa e pós-graduação da UFSJ. O objetivo da iniciativa é transformar a UFSJ em um polo de excelência internacional, promovendo a troca de conhecimento e fortalecendo as redes de pesquisa.
Com um investimento superior a R$ 2 milhões, a iniciativa está alinhada ao Plano de Desenvolvimento Institucional da Universidade e atua em duas frentes complementares: a internacionalização passiva, que oferece suporte para que estudantes de pós-graduação realizem doutorado sanduíche em instituições estrangeiras e que docentes possam realizar pós-doutorado no exterior; e a internacionalização ativa, que fomenta a vinda de pesquisadores estrangeiros para os programas da Universidade, promovendo o intercâmbio de conhecimentos.
De acordo com o professor André, o financiamento da Fapemig tem sido essencial, e o apoio da Fundep auxilia no andamento do projeto, pois, além de ser muito eficiente na operacionalização dos recursos, os canais de comunicação acessíveis agilizam o fluxo de informações e otimizam a execução da proposta. “Quando a agência de fomento financia e a fundação gestora executa a parte burocrática, o pesquisador pode se dedicar à parte técnico-científica da proposta, o que possibilita a otimização dos resultados na pesquisa”, finaliza.
Essa conquista da universidade resulta dos avanços recentes na pós-graduação, como o recorde no recebimento de estudantes estrangeiros em 2023, a premiação da universidade com o Prêmio Capes Elsevier de Produção Científica de Maior Impacto em 2022 e a elevação da nota de metade dos programas institucionais na avaliação quadrienal da Capes no mesmo ano.
Professor Carlos Arruda, presidente da Fapemig. Foto: Divulgação/UFV.
Para o professor Carlos Arruda, presidente da Fapemig, a parceria institucional da Fundação e da Fundep nos últimos anos tem sido “extremamente positiva e estratégica para o desenvolvimento da pesquisa, inovação e extensão em Minas Gerais. A Fapemig, como agência de fomento estadual, e a Fundep, como fundação de apoio a projetos da UFMG e outras instituições, possuem missões complementares”.
O professor também avalia que a atuação das fundações de apoio como gestoras de recursos destinados a projetos é crucial e um diferencial estratégico para a eficiência na aplicação desse capital. “As novas demandas e perspectivas da CT&I mineira, alinhadas às tendências globais, apontam para a necessidade de uma atuação cada vez mais integrada, estratégica e focada em resultados com impacto social e econômico. Nesse contexto, a relação Fapemig-Fundep tem um papel ainda mais relevante e pode se fortalecer por meio de alguns caminhos futuros”, completa.
Para o presidente da Fundep, professor Jaime Arturo Ramirez, ao longo dos anos, essa colaboração estratégica tem se mostrado essencial para a concretização de projetos de alto impacto. “Essa relação sólida, baseada na confiança mútua e no alinhamento de objetivos, permite que a Fapemig, como agência de fomento, concentre-se na formulação de políticas e na alocação estratégica de recursos. Enquanto isso, a Fundep, com sua expertise em gestão, assegura a execução eficiente e transparente dos projetos”, finaliza.
Gestão dedicada e estratégica impulsiona resultados dos projetos financiados pela Fapemig
Visando aprimorar e garantir maior eficiência no acompanhamento e execução das iniciativas, em 2012 a Fundep passou a contar com uma equipe dedicada exclusivamente ao gerenciamento de iniciativas financiadas pela Fapemig, sejam executadas pela UFMG ou por outras ICTs.
Presidente da Fundep no período de 2012 a 2014, Marco Aurélio Crocco, atual CEO do Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BHTec) afirma que, além de otimizar o trabalho, a formação de um grupo de profissionais especializados visava aprimorar a gestão, reduzir riscos e ampliar a satisfação dos parceiros.
“A Fapemig já era, naquele momento, o principal financiador de projetos da Fundep. Como os editais tinham regras específicas, vimos a necessidade de estruturar um atendimento próprio, especializado”, explica. Segundo Crocco, os analistas designados para essa nova frente passaram a se dedicar exclusivamente aos projetos da fundação estadual. “Com o tempo, essa especialização trouxe mais eficiência no suporte aos pesquisadores e na execução dos projetos”, completa.
Foi assim que surgiu na Fundep o Centro Integrado de Atendimento Fapemig (CIA Fapemig), uma equipe que lida com as diversas solicitações dos coordenadores para a execução dos projetos de ensino, pesquisa, extensão e desenvolvimento institucional. De acordo com a gerente da CIA Fapemig, Luciana Papatella, além de agilizar processos, a criação da equipe especializada foi fundamental para reduzir erros e oferecer um suporte mais próximo e qualificado aos pesquisadores.
“Os projetos financiados pela Fapemig muitas vezes têm características e exigências próprias em seus contratos e editais. Diferentemente de outros projetos apoiados pela Fundep, que normalmente chegam por meio do nosso setor de Negócios e Parcerias, esses já são encaminhados diretamente para a nossa área, garantindo um atendimento alinhado às especificidades do fomento”, explica.
Luciana Papatella destaca que, no início, a atuação dos analistas de projetos era limitada, mas que, com o passar dos anos e a ampliação da estrutura e dos processos internos, essa operação mudou. “Os analistas atuavam em demandas mais pontuais, como alterações de planos de trabalho ou pedidos de prorrogação. Com o tempo, passamos a acompanhar de perto cada projeto. Passamos a fazer reuniões de implantação dos projetos, criamos documentos, como resumos executivos, e realizamos encontros periódicos ao longo da execução, pelo menos uma vez por ano para cada projeto.”
Isso refletiu em uma maior aproximação da equipe com os coordenadores, criando uma relação mais colaborativa que possibilita ajustes e orientações durante todo o desenvolvimento dos projetos, resultando em uma gestão mais eficiente e transparente. “A maioria dos projetos tem duração média de dois a quatro anos. Esse acompanhamento ajuda o pesquisador a nortear os rumos do projeto e a evitar problemas no futuro, já que ele muitas vezes está focado na pesquisa ou tem mais de um projeto simultaneamente”, explica.
A partir de 2023, essa transformação foi intensificada, com a implementação do novo modelo de gestão de projetos, a chamada gestão de projetos de ponta a ponta, que visa a melhoria no atendimento ao coordenador, aprimorar os processos internos e valorizar o papel e a contribuição do analista no desenvolvimento do projeto e para a missão da Fundep.
Essa abordagem resultou em melhorias concretas: queda no número de diligências, maior percentual de execução dos recursos e eficiência na prestação de contas. A equipe cresceu e foi qualificada, com ampliação do quadro e a criação de novos procedimentos operacionais padronizados.
Edição: Tacyana Arce
Edição web: Marcelo Cardoso


