Notícias

Gestora de investimentos da Fundep muda foco para atender negócios de impacto social

Nascida para transformar conhecimento em soluções, Fundepar se consolidou como um agente relevante no ecossistema de inovação e agora investe em projetos alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS/ONU)

Ennio Henrique Rodrigues Silva

previous arrowprevious arrow
01

Diretor executivo da Fundepar, Carlos Lopes, faz exposição durante evento na reitoria da UFMG (2025) - Crédito: Eduardo Gabão

02

Alunos participam da abertura do segundo ciclo do Programa Motirõ na UFMG (2025) - Crédito: Eduardo Gabão

next arrownext arrow

Índice

A primeira empresa de investimentos criada por uma fundação de apoio no Brasil nasceu de uma decisão estratégica da Fundep. Naquela época, ao se aproximar dos 40 anos de existência, o objetivo era ir além da gestão de recursos e encontrar formas de investir diretamente em empresas e projetos que poderiam transformar o conhecimento em soluções para a sociedade.

Foi desse salto empreendedor que, em 2012, a Fundepar (Fundep Participações S.A.) foi criada e, em 2013, iniciou suas atividades, marcando uma significativa ampliação das ações da Fundep. A nova entidade tinha a missão de apoiar empresas inovadoras e, mais de uma década depois, o mundo se transformou, os objetivos foram se adaptando e os resultados são expressivos.

“Precisamos de estruturas de apoio para empreendedores que proverão as soluções necessárias”.

Carlos Lopes, Diretor Executivo Fundepar

Fundepar: gestora de investimentos da Fundep 

A Fundepar é uma gestora de fundos e programas de investimento, focada em negócios de base tecnológica e de impacto socioambiental positivo. Um dos seus diferenciais em relação a outras gestoras é, justamente, a proximidade com a universidade. Isso permite que a Fundepar seja uma gestora de venture capital (capital de risco) que adiciona a visão específica da Fundep e da UFMG às rigorosas análises de investimentos que realiza.

O venture capital é uma modalidade de investimento que equilibra potencial de retorno com risco de mercado. Em outras palavras, os investimentos de capital de risco são feitos em empresas que, no longo prazo, podem trazer múltiplos resultados, mas que tendem a enfrentar maiores desafios até lá.

No caso da Fundepar esses riscos são assumidos com um propósito: mais do que o retorno financeiro, o objetivo é transbordar o conhecimento para fora dos muros das universidades, gerando benefícios sociais.

Essa perspectiva se reflete no posicionamento da gestora, que enxerga o empreendedor como um agente de transformação. “Entendemos que apoiar negócios inovadores surgidos a partir do conhecimento científico gerado nas universidades é um caminho necessário para o desenvolvimento tecnológico nacional. A geração de empregos de qualidade, os benefícios à sociedade e o retorno financeiro são resultados concretos dessa atuação. E quando olhamos para os desafios complexos que estamos enfrentando fica mais evidente que precisamos de estruturas de apoio aos empreendedores que proverão as soluções necessárias. É nesse lugar que a Fundepar se posiciona”, sintetiza o diretor executivo da gestora, Carlos Lopes.

Após criteriosas análises técnica e financeira, os investimentos aprovados são acompanhadas de perto pela equipe da Fundepar visando a mitigação dos riscos, o crescimento e a rápida evolução das empresas.

Um tradutor entre pesquisadores e mercado 

De acordo com o então presidente da Fundep, professor Marco Crocco, a criação da Fundepar, em 2012, surgiu da ideia de criar uma espécie tradutor entre os pesquisadores da universidade e o mercado. “Queríamos um mecanismo que pudesse preparar uma spin off da UFMG, capacitar seus pesquisadores, para que pudesse receber um primeiro investimento e ir para o mercado”, explica Crocco.

Mesmo que a sustentabilidade financeira seja um critério para uma gestora, o primeiro programa de investimentos teve como estratégia assumir riscos de longo prazo, desde que gerasse spin-offs bem estruturadas.  “A Fundepar não nasce com o objetivo, em si mesmo, de ‘ganhar dinheiro’, mas de ser instrumento de transferência de tecnologia da UFMG para toda a sociedade”, explica Crocco.

“O Brasil é um país que produz muito mais ciência do que tecnologia porque nossa base produtiva tem grande presença de empresas estrangeiras que não internalizam conhecimento científico no Brasil. Por isso, o trabalho de transferência de tecnologia é absolutamente decisivo”, sintetiza o professor Clélio Campolina, reitor da UFMG entre os anos de 2010 e 2014. Campolina relembra que a UFMG é uma das universidades que mais produz patentes no país, mas que fazer isso chegar à atividade produtiva segue sendo um desafio.

“A patente é o conhecimento científico registrado. Mas, para que você possa aproveitá-lo, é preciso transferi-lo para a atividade produtiva, pública ou privada.  Se a gente tem a intenção de construir um projeto de desenvolvimento nacional, uma relativa autonomia, essa transferência é fundamental. Então, nesse sentido, a Fundepar cumpre um papel relevante de construção dessa ponte”, destaca Campolina.

“O trabalho de transferência de tecnologia é absolutamente decisivo para o Brasil”

Clélio Campolina, Reitor UFMG (2010-2014)

Uma década de impacto

Ao longo de sua trajetória, a Fundepar já realizou diversas ações para concretizar os objetivos de sua criação, sempre em conjunto com a Fundep.

As primeiras atividades, em 2013, foram focadas em negócios exclusivamente oriundos da UFMG. Em 2018, sua atuação foi ampliada para todo o Brasil com o lançamento do Seed4Science (S4S), um Fundo de Investimento em Participações (FIP) focado em startups de base tecnológica em estágio inicial de desenvolvimento.

Em 2018, a Fundepar também participou da criação do BiotechTown, a partir do diálogo entre a gestora, a Fundep e a Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge). Trata-se de um hub de inovação especializado em biotecnologia e ciências da vida. O foco é oferecer infraestrutura para que startups desse segmento possam acelerar o desenvolvimento de seus produtos e processos, com qualidade e menor imobilização de capital.

Além do Seed4Science, com a urgência cada vez mais incontornável do enfrentamento às crises climáticas, Fundep e Fundepar lançaram, em 2023, o Arapy, um veículo de investimentos especializado em negócios de impacto. Com um aporte inicial da própria Fundep, o programa visa startups que geram impacto socioambiental positivo associado ao retorno financeiro, e que estão alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.

Programas de aceleração de projetos e empresas são destaque em inovação 

Outra frente de atuação da Fundepar, além dos fundos, tem sido os programas de aceleração de projetos e empresas.

Em 2015, foi criado o Lemonade (2015-2020), um projeto da Fundep, Fundepar e da Coordenadoria de Inovação e Transferência Tecnológica da UFMG (CTIT) que foi eleito, em 2017, como um dos 20 maiores programas de pré-aceleração do mundo, pelo Global Accelerator Report. Com mais de 15 edições, o programa impactou milhares de empreendedores e acelerou centenas de startups e projetos.

Em 2024, Fundep e Fundepar voltaram a realizar um programa de aceleração. Alinhadas ao novo contexto do Arapy e dos ODS, criaram o Motirõ, um programa de desenvolvimento de negócios de impacto. Dessa vez, as empresas participam de uma intensa jornada de aceleração que reúne atividades teóricas, de formação, abertas ao público, com atividades práticas e customizadas focadas no desenvolvimento ágil das empresas participantes. Realizado em parceria com a UFMG, Fundep e BH-TEC, o Motirõ iniciou o segundo ciclo em 2025.

Até julho de 2025, a Fundepar já havia analisado mais de 3 mil empresas e projetos, investido em dezenas dessas e tem alcançado resultados relevantes com seu portfólio. Um dos marcos foi a venda para o Grupo Bradesco, em 2024, da Kunumi, uma spin-off da UFMG especializada em Inteligência Artificial que recebeu investimento da Fundepar.


Como funcionam os investimentos

Nem toda empresa precisa de investimentos e, mesmo dentre as que precisam, cada estágio de desenvolvimento precisa de um tipo de aporte. Confira alguns exemplos:

    • Pré-Seed e Seed Money (Capital Semente): São os primeiros aportes que uma startup recebe. O “seed money” é usado para validar a ideia, desenvolver o primeiro produto e começar a testar o mercado.

    • Série A: Com o produto validado e uma base inicial de clientes, a startup busca um investimento maior para escalar suas operações, otimizar processos e expandir a equipe.

    • Séries B, C e além: Em estágios mais maduros, a empresa capta recursos para acelerar o crescimento de forma agressiva, expandir para mercados internacionais ou adquirir outras companhias.

A Fundepar atua principalmente nas fases iniciais em que capital e suporte estratégico são mais cruciais.

Edição: Tacyana Arce
Edição web: Luiza Ferreira