Experiência consolidada com iniciativas de grande porte, que ultrapassam contornos de um projeto, consagra Fundep como referência nacional na gestão de programas setoriais de inovação
Thiago Leão
Criado para promover a descarbonização e a mobilidade verde no país, o Programa Mover estimula a inovação
tecnológica nas linhas de montagem do setor automotivo. Foto: Divulgação/Mover.
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Em cinco décadas de conexão com múltiplos parceiros – como empresas, centros de pesquisa, universidades e órgãos públicos – a Fundep desenvolveu visão privilegiada sobre o potencial de soluções inovadoras em desenvolvimento e os impactos que tais iniciativas podem gerar para o setor produtivo e a sociedade. Essa posição possibilitou à Fundação desempenhar um papel que vai além da gestão administrativa e financeira de projetos: a de gestora de iniciativas que ultrapassam os contornos de um projeto.
Exemplo disso é o Programa Nacional de Mobilidade Verde e Inovação (Mover) (ex-Rota 2030), que foi criado pelo Governo Federal com o objetivo de impulsionar a modernização e a sustentabilidade nas áreas da mobilidade e logística no Brasil ao conectar centros de pesquisa e indústria automotiva. Com enfoque na nova industrialização do país, o programa promove a pesquisa e a inovação, contribuindo para o avanço tecnológico e a competitividade da indústria nacional.
O papel da Fundep é conectar indústrias, start-ups e Instituições de Ciência e Tecnologia (ICTs) no desenvolvimento de projetos de inovação tecnológica no setor e, para tanto, coordena três programas prioritários do Mover – Ferramentarias Brasileiras Mais Competitivas, Biocombustíveis, Segurança e Propulsão Veicular e Conectividade Veicular.
Sob a liderança da Fundep, os três programas do Mover já receberam mais de R$ 700 milhões em aportes destinados à execução de aproximadamente 400 projetos, envolvendo mais de 300 empresas e 80 ICTs em iniciativas de inovação, capacitação, formação e empreendedorismo.
Experiência acumulada
O pesquisador do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Ronnie Rego, coordenador de projetos do programa Mover, destaca que a Fundep tem sido peça-chave na governança e execução dos programas setoriais do setor automotivo. “A Fundação foi ousada ao assumir essa função no início do Rota 2030, o que naturalmente trouxe desafios para sua execução. Mas sua capacidade de aprendizado e aprimoramento contínuo tem sido notável. A Fundep implementou processos mais ágeis e um sistema mais amigável para interação com as equipes de projeto”, avalia.
Rego destaca a sistematização das operações e a abertura ao diálogo como fatores diferenciais: “Nota-se uma habilidade rara de ouvir críticas construtivas e reagir rapidamente, ajustando modelos e procedimentos. Essa postura colaborativa tem sido essencial para fortalecer a governança e o alinhamento entre os diversos atores do ecossistema do programa”, observa.
O pesquisador também ressalta que a experiência acumulada como fundação de apoio traz ganhos concretos de eficiência e transparência para a Fundep. “O fato de conhecer de perto as dificuldades da execução de projetos permite que essa vivência se transforme em aprendizado – uma espécie de ‘experiência do cliente’ aplicada à melhoria contínua dos processos”, afirma.
Para Rego, o papel de uma instituição gestora estruturada como a Fundep é determinante para o sucesso de programas setoriais de grande porte. “Projetos maiores, disruptivos e estruturantes exigem uma governança complexa e a interação constante com as instituições executoras. Ter uma gestora com expertise e capacidade organizacional é essencial para garantir o andamento e a efetividade dessas iniciativas”, afirma.
Ponte entre ciência, tecnologia e mercado
O vice-presidente da República e Ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin,
e o presidente da Fundep, professor Jaime Arturo Ramírez. Foto: Divulgação/Programa Mover.
A trajetória da Fundep na gestão de programas como o Mover marca um capítulo decisivo na consolidação da fundação como referência nacional em governança de programas setoriais de inovação. O processo de captação e estruturação do antigo Rota 2030 foi resultado da intensa mobilização entre diferentes atores em torno de uma agenda comum.
Impulsionada pela Lei da Inovação, promulgada em 2004, a Fundep atuou como facilitadora desde o início, contribuindo na estruturação dos instrumentos necessários para viabilizar os aportes de P&D [Pesquisa e Desenvolvimento] de forma ágil, transparente e em conformidade com a regulação federal.
Para atender às demandas do programa, a Fundep promoveu uma reorganização interna, criando, em 2022, uma estrutura dedicada exclusivamente à coordenação de programas. Foram formadas equipes especializadas em análise técnica, acompanhamento financeiro, comunicação, captação de recursos e relacionamento institucional, além da integração com outras áreas como jurídico, prestação de contas e compliance. Essa estrutura fortaleceu a governança interna e preparou o caminho para que a fundação renovasse a coordenação dos programas prioritários do Mover, em 2024, por mais cinco anos.
A gerente de Programas da Fundep, Ana Eliza Braga, acrescenta que uma das razões do sucesso na gestão dessas iniciativas está na aplicação de metodologias de design de serviços. “Quando aplicamos o design ao contexto dos programas setoriais, conseguimos desenhar e coordenar ações com base nas reais necessidades dos parceiros. Isso garante que as soluções sejam úteis, acessíveis e alinhadas às expectativas de quem está no centro dessas transformações”, afirma.
Segundo Ana Eliza, o mapeamento de partes interessadas é essencial para compreender a complexidade dos ecossistemas de inovação. “Essa abordagem nos permite visualizar com clareza o conjunto de relações, desafios e oportunidades de cada programa. Além disso, favorece a cocriação de soluções, envolvendo especialistas, pesquisadores, empresas e representantes do poder público em um processo colaborativo e interdisciplinar”.
Ela ainda destaca que essa lógica de trabalho reforça o papel da Fundep como ponte entre ciência, tecnologia e mercado, promovendo a transformação de ideias em resultados concretos. “Ao adotar um modelo centrado no usuário e orientado à colaboração, ampliamos o alcance e a efetividade dos programas, consolidando a fundação como agente estratégico no fortalecimento da inovação e no desenvolvimento tecnológico do país”, conclui.
Crescimento tecnológico e econômico sustentável
Para o economista e professor emérito da UFMG, Mauro Borges Lemos, ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e ex-presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), iniciativas como o programa Mover representam a consolidação de uma agenda estratégica para o País. “As políticas setoriais brasileiras refletem um processo de amadurecimento das estratégias de ações voltadas à expansão produtiva e tecnológica, especialmente a partir do ano 2000. Elas permitiram que o Brasil avançasse para elos de maior valor agregado nas cadeias produtivas globais, reduzindo a dependência de importações e ampliando sua competitividade”, observa.
Para Lemos, os resultados dessa trajetória são concretos e podem ser vistos em setores-chave da economia. “A introdução da eletrônica embarcada [área que atua no desenvolvimento de sistemas eletrônicos integrados a outros dispositivos] no setor automotivo é um exemplo de como o estímulo à inovação tecnológica pode transformar estruturas produtivas e gerar benefícios diretos para o País”, explica.
O professor ressalta ainda que o avanço tecnológico depende da capacidade de gerar conhecimento e propriedade intelectual. “Esses são fatores que conferem vantagem competitiva às empresas e às nações. Quando há uma política pública capaz de articular esses elementos, cria-se um ambiente fértil para o desenvolvimento sustentável e contínuo”, enfatiza.
Além da Lei da Inovação, Lemos destaca a importância dos Fundos Setoriais – recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) destinados a setores específicos como saúde, agronegócio e energia, entre outros – como pilares do sistema de fomento brasileiro. “Essas medidas foram fundamentais para o fortalecimento da inovação. Elas estabeleceram as bases para o financiamento de longo prazo e criaram condições para que universidades e empresas brasileiras cooperassem de forma efetiva”, afirma.
O economista lembra que, antes da promulgação da Lei da Inovação, instituições de ensino e pesquisa enfrentavam restrições legais para firmar acordos de cooperação e registrar patentes próprias. “A mudança na legislação foi um divisor de águas, permitindo que universidades como a UFMG consolidassem sua posição entre as líderes nacionais em inovação, o que abriu espaço para uma nova cultura de parceria com o setor produtivo”, observa.
Segundo ele, esse modelo de interação entre governo, academia e indústria cria um processo cumulativo de fortalecimento mútuo. “As empresas se beneficiam do avanço científico, enquanto as universidades ganham relevância e recursos ao desenvolver pesquisas aplicadas. Esse ciclo virtuoso é o que diferencia os países capazes de sustentar o crescimento tecnológico e econômico no longo prazo”, conclui.


