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“Vamos de mãos dadas”: Fundep e UFMG

Reitora Sandra Goulart Almeida recorre a Carlos Drummond de Andrade como metáfora da “relação umbilical” entre Fundep e UFMG e reconhece que fundação é essencial para que a Universidade cumpra sua missão junto à sociedade

Profa. Sandra Goulart Almeida, reitora da UFMG. Foto: Ian Lara.

Em entrevista ao Jornal da Fundep, a reitora da UFMG, Sandra Goulart Almeida, revisita uma trajetória de três décadas que se confunde com a própria história da Fundação. Com a autoridade de quem liderou a Universidade no momento mais crítico da história contemporânea — a pandemia de covid-19 — e a sensibilidade literária de uma professora da Faculdade de Letras, Sandra define a relação entre a UFMG e a Fundep como “umbilical”. Mais do que uma gestora, ela fala como alguém que vivenciou a importância do apoio prestado pela Fundep aos pesquisadores desde o início da carreira acadêmica. A reitora analisa o papel das fundações de apoio, os impactos do Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação e a luta das mulheres pelos espaços de poder. Ao final, entre citações de Drummond e Milton Nascimento, celebra o cinquentenário da Fundação projetando um futuro de perene renovação: Incipit Vita Nova.

Jornal da Fundep – Dos 50 anos da Fundep, a senhora esteve à frente dela, como gestora da UFMG – reitora ou vice – em 12 deles. E anteriormente a isso, como Diretora de Relações Internacionais e como pesquisadora, a senhora já se relacionava com a Fundep. A quanto remonta a história da senhora com a Fundação?

Reitora – Nossa, é muito tempo (risos). Venho de uma trajetória de conexão muito profunda com a Fundep. Em 1996, um ano depois de eu ingressar como docente, a Fundep lançou um edital do ‘Fundo Fundep’, o que teve um papel muito importante na consolidação de um grupo grande de recém-doutores que, como eu, havia chegado à Universidade como um todo, mas principalmente à Faculdade de Letras. Assim pudemos montar nossos laboratórios, dar os primeiros passos na pesquisa. Depois fui ‘Pesquisadora Mineira’, um apoio da Fapemig [Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais] feito por meio da Fundep. Depois vieram vários outros projetos que eu coordenei, como propositora ou como chefe de departamento. Posso dizer que a Fundep faz parte da minha vida desde que me tornei professora, há 30 anos.

JF – E em todo esse período, como a senhora avalia essa relação entre a UFMG e a Fundep? E qual seria o diferencial dessa relação nos anos em que a senhora esteve à frente do reitorado?

Reitora – A relação da universidade com a Fundep é bastante umbilical. Ela surgiu numa época em que a Universidade precisava ter condições de receber recursos para desenvolver a pesquisa e hoje medeia recursos para ensino, extensão, cultura, permeando toda a vida da UFMG, incluindo a inovação. Mas, em determinado momento, a Fundep se distanciou um pouco da nossa Universidade, devido às várias parcerias assumidas. Por isso, solicitei ao professor Jaime Ramírez que a Fundep se revestisse da postura de uma fundação da UFMG, o que ele, que também foi reitor da Universidade, soube fazer muito bem. Retomamos também o Fundo Fundep, por meio do qual a Fundação volta a atuar diretamente nas ações de ensino, pesquisa e extensão, não apenas como uma gerenciadora de projetos, mas como uma instituição que também tem por objetivo apoiar as iniciativas inovadoras da Universidade.

JF – Durante sua gestão, a Fundep, até então Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa, passou a assinar Fundação de Apoio da UFMG. Que valor essa mudança agrega para a Fundep e para a UFMG?

Reitora – Ao explicitar o nome da nossa universidade na marca Fundep o objetivo era evidenciar que a Fundação é umbilicalmente ligada à Universidade e também permitir à Fundep se beneficiar mais da reputação da UFMG nos cenários nacional e internacional. A Fundep é, hoje, a mais importante fundação de apoio do País. É sólida, robusta, longeva — tanto é que está comemorando os seus 50 anos. Na história da universidade brasileira, há várias fundações que começaram muito bem, mas sofreram percalços. A Fundep manteve-se como fundação de peso e isso fortalece a UFMG.

JF – Fortalecer a UFMG era justamente a justificativa para a criação da Fundep, na década de 1970. Era a aposta em uma instituição privada para resolver entraves burocráticos que tornam lentos os processos nas instituições públicas. Mas naquela época houve resistência a esse arranjo, questionamentos que reapareceram pontualmente ao longo da história da Fundep. A senhora diria que hoje esse incômodo está de todo superado?

Reitora – Eu acredito que sim, até porque é uma maneira muito simplista de ver o trabalho de uma fundação de apoio. É verdade que, ao longo dos anos, houve muitos questionamentos, inclusive jurídicos, mas hoje se entende, de fato, a importância das fundações de apoio — não apenas para execução dos projetos institucionais, mas para que a universidade possa dialogar com a sociedade, realizar a transferência de conhecimento e estar aberta a outras formas de se relacionar. Um dos motivos pelos quais a UFMG se destaca é porque a Fundep nos permite levar à sociedade, ao povo brasileiro, muitas das nossas ações de saúde, cultura e inovação, entre outros, alé de nos permitir fazer transferência de tecnologia.

JF – Por falar em inovação e transferência de tecnologia, as universidades públicas brasileiras perderam o pudor de dizer que precisam se relacionar com o mercado, ou com o setor produtivo? Qual é o papel das fundações nesse relacionamento?

Reitora – Eu não diria que “perderam o pudor”, mas que houve um amadurecimento de uma relação de mão dupla. Antigamente, o chamado setor produtivo tinha dificuldade de entender a universidade, e nós também tínhamos nossas resistências. Hoje, sabemos que não se faz inovação, desenvolvimento socioeconômico e justiça social sem parcerias. Dentre as universidades federais, a UFMG é a que tem maior tradição de cooperar, inovar e transferir tecnologia. Isso sempre acontece via Fundep, pelos instrumentos legais que nos permitem realizar esse trabalho. Claro que há outro elemento: o governo, que deve nos ajudar a aparar arestas e facilitar essa relação, o que tem sido feito por meio do Marco Legal de Ciência e Tecnologia (2016). Isso permitiu a consolidação, por exemplo, das unidades Embrapii [centros de pesquisa e centros tecnológicos de excelência que atuam como pontes entre a academia e a indústria, desenvolvendo projetos de inovação tecnológica de alto nível com agilidade, baixa burocracia e financiamento não reembolsável], que cumprem o papel de conectar a produção universitária com quem pode escaloná-la. Vivemos um outro momento da universidade brasileira, embora ainda tenhamos que avançar.

JF – Quanto ao Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, sabemos que a UFMG e a Fundep, particularmente, tiveram um papel muito central na discussão que deu origem à legislação. Já são quase 10 anos de aprovação, o que avançou deste então?

Reitora – A lei é excelente, mas, como tudo no Brasil, existe um distanciamento entre promulgação e implementação. Várias ações previstas ainda não foram implementadas pois faltam instrumentos para isso. Lidamos com um aparato jurídico muito rigoroso, e a Lei do Marco Legal, que é para estimular inovação, é ela própria muito inovadora, o que deixa margem a algumas dúvidas. Ainda assim, a UFMG realizou várias ações amparadas pelo Marco Legal e lidera o cenário nacional nessas iniciativas. São exemplos disso a abertura dos laboratórios para empresas e indústrias, a maior presença dos nossos pesquisadores nesses espaços, além de uma interlocução maior e alianças mais estratégicas. Além disso, a partir do Marco, aquele “pudor” a que você se referiu foi totalmente minimizado. As fundações passaram a ter um papel muito importante em todo esse cenário de inovação e na implementação de políticas inovadoras.

JF – Uma das previsões do Marco Legal é que fundações de apoio possam captar recursos, mas esse não é um consenso entre universidades, nem entre fundações. Na avaliação da senhora, cabe às fundações gerir recursos ou também captá-los?

Reitora – No momento, da maneira como o sistema está construído, cabe às fundações de apoio executar aquilo que a universidade capta. Efetivamente, o Marco Legal de Ciência e Tecnologia prevê a possibilidade de formação de fundos patrimoniais e a UFMG começou a fazer essa discussão, mas ainda há lacunas legais para a sua consolidação. O Conselho Universitário discute, ainda, de que maneira a Fundep pode, de forma segura e sempre sob determinações da UFMG, realizar a captação de recursos. Entretanto, qualquer captação, mesmo via fundos patrimoniais, jamais poderá substituir o aporte governamental. É importante deixar isso muito claro: somos uma instituição pública, e os recursos públicos são inestimáveis e essenciais para o funcionamento da Universidade. Qualquer captação será sempre um recurso extra para projetos específicos.

JF – Mas enquanto a senhora era vice-reitora a Fundep criou a Fundepar — uma empresa de investimentos e gestão de fundos. Como a senhora vê a atuação da Fundepar?

Reitora – Eu estava, inclusive, no Conselho Curador da Fundep quando a Fundepar foi criada. Aquele foi um momento em que fundos de investimentos estavam surgindo em diversas instituições e a ideia era abrir espaço para que a Fundep pudesse atuar mais como investidora do que como captadora, focando em áreas específicas de interesse institucional. Realmente foi um marco importante, mas acredito que agora passamos por outro momento. Continuo defendendo que o trabalho da Fundep e da Fundepar deve estar sempre atrelado à UFMG e acredito que a Fundepar terá um papel crucial quando definirmos, via Conselho Universitário, as diretrizes para os fundos patrimoniais.

JF – A senhora tem destacado aqui — mesmo que não reduzindo o protagonismo da Fundep  – que na relação Universidade-Fundações de Apoio, quem dá os direcionamentos é a instituição universitária. Por quê?

Reitora – Na minha visão, e pela experiência que tivemos em fundações de outras universidades, isso é muito claro: as fundações de apoio devem estar ligadas diretamente às ações das universidades que apoiam. De outra forma, perde-se o objetivo inicial de sua criação. Como o próprio nome diz, é uma fundação de apoio, sendo assim, ela deve, de fato, estar alinhada à missão da universidade pública. Do contrário, ela desvirtua sua função e passa a realizar ações não necessariamente ligadas ao ensino, à pesquisa, à extensão e à inovação — atividades que são próprias das universidades.

JF – E por que a Fundep — com a autorização da UFMG — apoia outras instituições de ciência e tecnologia, e outras universidades daqui de Minas e do País?

Reitora – Primeiro, porque existe uma previsão legal para isso. Mediante a autorização do dirigente máximo da instituição de origem, fundações podem apoiar outras instituições. Segundamente, porque acredito que cumprimos uma missão importante. Sabemos que nem toda universidade consegue ter a sua própria fundação de apoio, dadas as condições e exigências demandadas. Nesse sentido, ao apoiar outras instituições, a Fundep cumpre um papel institucional que também é da UFMG: apoiar nossas congêneres para que elas possam desenvolver seus projetos assim como nós fazemos. Sempre que recebo um pedido de alguma instituição, vejo isso como uma missão e um compromisso da UFMG. Se podemos ajudar e contribuir, atuando como fundação de apoio para elas, isso é desejável. Assim, conseguimos manter uma rede bastante articulada, voltada para a atuação das nossas instituições em favor da sociedade.

JF – Nesse esforço de reconexão da Fundep com a UFMG, a Fundação reativou, depois de um grande hiato, o Fundo Fundep. Por que essa foi uma prioridade?

Reitora – Para mim, o Fundo Fundep é um instrumento importantíssimo para a gestão universitária e uma das políticas mais importantes que a universidade pode adotar: apoiar e criar projetos acadêmicos que retornam para a comunidade. Isso dá um outro sentido à fundação. Quando a Fundep apoia essas ações acadêmicas e se movimenta para ir além do seu trabalho administrativo costumeiro, ela fortalece a união com a universidade. É extremamente gratificante ver a reação dos pesquisadores: ‘Nossa, eu ganhei um Fundo Fundep, que legal!’. Isso cria um vínculo afetivo e real, pois as pessoas se sentem, de fato, apoiadas para além da missão da Fundep de apenas administrar projetos. É como se consolidássemos a ligação entre a UFMG e a Fundação.

JF – Se a senhora tivesse que escolher um momento, durante sua gestão, para simbolizar a relação simbiótica entre a Fundep e a UFMG, qual a senhora descreveria?

Reitoria – Sem dúvida o da pandemia de covid-19, porque foi um marco muito importante do nosso relacionamento em várias frentes. Fizemos uma campanha de apoio aos hospitais da UFMG (o HC e o Risoleta), que só foi possível com a ajuda da Fundep. De imediato conseguimos arrecadar R$ 6 milhões que foram essenciais num momento em que era necessário reforçar equipes, comprar toneladas de materiais descartáveis. Foi uma campanha arrojada de papel inestimáveis. Todo mundo queria contribuir, mas não sabiam como. Mas além da campanha, a expertise e a agilidade da Fundep em importação fizeram toda a diferença, não apenas para nossos hospitais. Não havia insumos no Brasil, não havia sequer máscara e álcool em gel. Conectamos a Universidade de Wuhan – que enfrentou os primeiros casos da Covid – parceiros da UFMG de longa data. Eles nos ajudaram a encontrar fornecedores, mas a UFMG, sozinha, não poderia fazer a compra. A Fundep ajudou a abastecer, inclusive, os hospitais municipais. A Fundação teve e continua tendo um papel importante, pois a vacina contra a covid-19, a SpiN-TEC, está sendo desenvolvida com todo o apoio dela.

JF – Sendo a senhora apenas a terceira mulher a estar à frente da UFMG, e tendo a Fundep tido, em 50 anos, apenas duas mulheres como dirigentes máximas, não podemos deixar de falar de gênero. Por que esse lugar da gestão ainda é tão masculino?

Reitora – O cenário é masculino não apenas aqui no Brasil, mas no mundo inteiro. É assustador ver como as mulheres, apesar de serem maioria nos cursos de graduação e pós-graduação, ainda têm dificuldade de chegar ao topo — fenômeno que várias pesquisadoras chamam de ‘efeito tesoura’. À medida que as mulheres sobem na carreira, vão sendo preteridas por ‘N’ razões e contextos sociológicos e culturais. Ainda somos minoria.

Na Andifes [Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior], que reúne 69 universidades, éramos apenas 12 mulheres até recentemente. Agora houve um aumento exponencial e já somos 27. Comparado ao número anterior, é um avanço enorme, mas o cenário ainda é predominantemente masculino. Fui a primeira presidente mulher do Grupo de Montevidéu em 30 anos de associação. O corpo dirigente no cenário internacional ainda é muito masculino. As mulheres não apenas são preteridas para os cargos, mas muitas vezes são invisibilizadas. A relação nem sempre é tranquila ou fácil; é preciso ter uma personalidade bastante forte para enfrentar um mundo que ainda opera com a lógica masculina. Essa é uma luta de todos nós. Avançamos muito, mas ainda temos um longo caminho pela frente.

JF – Professora, a senhora está deixando o Reitorado tendo a Fundep 50 anos e quase comemorando o centenário da UFMG (1927-2027). Que mensagem a senhora deixaria para a comunidade acadêmica e, particularmente, para os(as) nossos(as) colaboradores(as).

Reitora – Primeiramente, vida longa à nossa Fundação de Apoio, essa instituição que tem sido imprescindível para que a UFMG possa cumprir sua missão e que se manteve forte mesmo num momento recente da história do País que foi bastante difícil para as fundações.Vamos de mãos dadas, como no poema de Carlos Drummond de Andrade”. Mas gostaria também de citar o lema da nossa universidade: Incipit Vita Nova, que quer dizer “uma vida nova principia”. A Fundep, assim como a UFMG, é feita de ciclos que se renovam. É uma travessia, nas palavras de Milton [emociona-se]. Como na música do Milton, “o trem que chega é o mesmo trem da partida”. É um ciclo perene de renovação, vital para a Universidade e para a Fundação. Então, longa vida à Fundep, longa vida à nossa Universidade, e que esse trem continue se renovando cada vez mais.