Em discurso comemorativo, a reitora da UFMG, Sandra Goulart Almeida, resgata as origens da Fundação e celebra o seu papel como um dos esteios da ciência e da educação em nosso país. Leia na íntegra:
Foto: Divulgação/Fundep
É com grande contentamento e com muito orgulho que presido desta cerimônia de celebração dos 50 anos da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep). Minhas congratulações e meus agradecimentos ao Prof. Jaime Ramirez, Presidente; aos demais diretores, Prof. Walmir Caminhas e Profa. Elizabeth Ribeiro da Silva; aos membros do Conselho Curador; e a todos os colaboradores que contribuíram para chegarmos aqui hoje, neste importante marco histórico para a Fundep, bem como para a importante UFMG.
A universidade e as instituições a ela associada, como a Fundep, são feitas de pessoas, a quem devemos agradecer a dedicação e a contribuição para chegarmos aonde hoje estamos: uma fundação respeitada, alinhada a seu tempo e a serviço da produção de conhecimento, da inovação e do desenvolvimento social e econômico do país.
A missão da Fundep, como é hoje configurada, é apoiar a UFMG em suas atividades de pesquisa, ensino, extensão e desenvolvimento institucional, e também prestar serviços à sociedade. E, nesse sentido, a Fundep é hoje, sem sombra de dúvida, uma fundação de referência, reconhecida por sua gestão responsável, sustentável e de excelência. Isso se deveu à gestão primorosa e ao esforço e comprometimento institucional de cada um dos presidentes e suas respectivas equipes que por ela passaram, e a quem agradecemos de forma especial. Diria nosso querido Gonzaguinha:
E aprendi que se depende sempre
De tanta, muita, diferente gente.
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas.
A essa tanta gente, o nosso muito obrigada!
Na origem, nascia, em fevereiro de 1975, a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa, fundação de apoio à UFMG. Surgiu em um contexto de ampla estruturação da universidade pública como polo de pesquisa para o desenvolvimento nacional. Os tempos eram de grandes desafios para uma universidade ainda nova para os padrões internacionais como a UFMG, criada em 1927, mas que já se consolidava no cenário nacional com seus 48 anos de vida. Ao mesmo tempo, vivíamos sob o jugo de uma ditadura, que perseguiu acintosamente a nossa comunidade e nossos gestores, e restringiu direitos civis e políticos. Nasce, assim, a nossa Fundep, tanto sob o selo da resistência e da luta pela democracia que marcou nossa instituição, quanto da marca da Universidade pública, de sua relevância e de seu comprometimento com o nosso país.
Foi nesse ambiente de contradições, na tensão entre modernização e arbítrio, que a UFMG, que a UFMG, sob o comando do saudoso reitor Eduardo Osório Cisalpino, decidiu criar uma fundação de apoio à pesquisa para impulsionar, em especial, a pesquisa na Universidade, na medida em que agilizasse sua gestão. Surgia, em especial, da necessidade de “autonomia” para que a Instituição pudesse se desenvolver adequadamente. Era o tempo em que os conceitos de uma universidade humboldtiana dominavam por aqui, marcando a indissociabilidade entre ensino e pesquisa, liberdade acadêmica e autonomia institucional. A Fundep foi, pois, fruto do sonho acalentado por toda e qualquer universidade que almeja cumprir sua missão precípua de atender os anseios da sociedade e alcançar excelência e relevância. Era a utopia da autonomia, presente desde o nascedouro da UFMG até nossos dias, sendo exercitada a partir de um modelo então considerado inovador. Suas transformações ao longo dessas cinco décadas revelam, sobretudo, como essa utopia acalentada pelos seus pioneiros ganhou materialidade por meio de sua relevante atuação como fundação de apoio à UFMG.
Em sua gênese, a Fundep tinha a pesquisa como centro de sua atuação. Com o passar do tempo, porém, a atuação da instituição foi se integrando às várias dimensões da Universidade, alcançando o ensino, a extensão, a cultura e o próprio desenvolvimento institucional.
No campo da pesquisa, a Fundep surge exatamente das necessidades geradas pela evolução da pesquisa na UFMG, com a ampliação e consolidação de vários grupos. Começava ali a construção do ecossistema de pesquisa e inovação da UFMG, que ganhou robustez nas décadas seguintes com uma série de iniciativas apoiadas pela Fundep, como a criação de dezenas de startups, do Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC) e da consolidação da Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica (CTIT). A Fundep, portanto, transcendeu a sua missão original de se dedicar à gestão financeira de projetos de pesquisas, abarcando hoje um amplo cenário de indução e gestão da pesquisa, da inovação social e tecnológica, do ensino e da extensão.
Além da pesquisa, nas últimas décadas, a Fundep apoiou amplamente a extensão da UFMG e se credenciou como uma dimensão fundamental para o cumprimento da função pública da Universidade e sua necessária articulação com a sociedade. O que exigiu a formulação de políticas de fomento para garantir a exequibilidade de programas e projetos de extensão cada vez mais relevante para nossas cidades, nosso estado e para o país. Nesse sentido, a Fundep exerceu papel decisivo nesse processo de institucionalização da extensão e de sua consolidação como lugar central da produção de conhecimento para o país em interlocução com a sociedade.
A Fundep vem oferecendo, ainda, contribuição destacada na reconfiguração do campo cultural no âmbito do projeto acadêmico da UFMG. A Fundep foi instrumental na gestão de importantes projetos culturais da UFMG, como o Espaço do Conhecimento e o Campus Cultural Tiradentes. E cabe registrar que, mais recentemente, a Fundep tem emprestado sua larga expertise ao fortalecimento da Fundação Rodrigo Mello Franco de Andrade, hoje uma fundação de apoio dedicada à cultura na UFMG.
Se os nossos hospitais universitários (Hospital Clínicas e Risoleta Tolentino Neves) estão entre os mais bem gerenciados da rede pública de Belo Horizonte, isso se deve, em boa medida, ao trabalho da Fundep, que atuou durante muitos anos na gestão do Hospital das Clínicas, e hoje se encarrega de fazer a necessária gestão do Risoleta, que somente pode atuar como um importante hospital de ensino, 100% SUS, pela excelente gestão da Fundep.
A consolidação do campus Pampulha na primeira década deste século também teve a contribuição da Fundep, que teve papel decisivo em várias construções nos campi da UFMG. Setores altamente especializados, como o Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis (Cecor), essencial na preservação do patrimônio cultural do país, e o Centro de Treinamento Esportivo (CTE), responsável pela formação de atletas olímpicos e paraolímpicos, contaram com o suporte decisivo da Fundep para se estruturarem.
Ao mesmo tempo em que atuou como fundação de apoio à UFMG, a Fundep cresceu, e os seus tentáculos de apoio alcançam, além da UFMG, outras 11 importantes instituições públicas do país. A Fundep é a gestora de inúmeros projetos desenvolvidos anualmente por essas instituições, o que configura mais uma evidência de sua importância para a ciência e a educação superior no país e para a sustentabilidade de amplos setores do Estado brasileiro. Entre as várias iniciativas estratégicas, destacamos o programa Mover/Rota 2030, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que é considerado vital para a competitividade da indústria automotiva do país. Nossa fundação assumiu a gestão de três dos sete projetos prioritários do Mover: Ferramentarias brasileiras mais competitivas; Biocombustíveis, segurança e propulsão veicular; e Conectividade veicular.
Com toda a sua expertise amplamente demonstrada ao longo desses anos, é natural que a Fundep fosse requisitada por outras instituições públicas brasileiras, e isso é motivo de orgulho para a nossa Universidade. No entanto, sua alma matercontinua sendo a UFMG. Nos últimos anos, sua conexão com nossos projetos estratégicos foi ampliada com a retomada, por exemplo, de iniciativas como o Fundo Fundep — que prevê a aplicação de 30% do seu superávit contábil em ações de desenvolvimento acadêmico e institucional —, e do apoio às cátedras do Instituto Transdisciplinar de Estudos Avançados (IEAT) e à Editora da UFMG, tornando-se cada vez mais “a fundação da UFMG”.
Não há dúvida de que a Fundep cumpre à risca os atributos de uma fundação de apoio robusta e eficiente. Pode-se dizer, ainda, que ela é um dos esteios que sustentam a nossa quase centenária UFMG. Mais da metade de nossa história carrega a inconfundível marca da Fundep. Rememorar o passado da nossa Fundep e celebrar suas conquistas é também comemorar a relevância da Universidade pública de qualidade e de referência para a sociedade brasileira e para o país. E é, ainda, fortalecer o sonho da utopia de uma universidade cada vez mais autônoma, para que tanto a Universidade quanto a Fundep possam cumprir sua missão de relevância para a sociedade e, assim, estar indubitavelmente comprometida com a educação superior pública, a democracia e a liberdade de expressão em nosso país.
Ao comemorar os 50 anos de existência da nossa Fundep, somos levados a revisitar o passado, registrar o presente e apontar para um futuro que, esperamos, seja promissor e sempre interligado com o da UFMG. Em um poema muito conhecido, diria Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta maior, ex-aluno da nossa UFMG, cujo centenário de formatura celebramos em 2025: “as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”. Conosco ficará não apenas a história dessa fundação robusta e inovadora, mas também sua trajetória de sucesso e comprometimento e a intrínseca conexão com esta Casa. No seu aniversário de 50 anos, desejo longa vida à nossa Fundep, cujo legado hoje celebramos, desejando ainda que permaneça ao lado da UFMG para que ela possa – e possamos todos nós que pertencemos a esta comunidade – cumprir cada vez mais nosso compromisso junto à sociedade, o compromisso de uma instituição forte, de qualidade, inclusiva e, sobretudo, democrática. E, “Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota”, nos lembra Adélia Prado. É um desejo de coração, de cor, de recordar e de coragem: feliz aniversário a esta coragem senhora do alto de seus 50 anos de vida e de experiência.


