Em discurso marcante, o professor Hugo da Gama Cerqueira, presidente do Conselho Curador da Fundep, reflete sobre cinco décadas de desafios superados e a contínua construção do futuro. Leia na íntegra:
Foto: Divulgação/Fundep
Magnífica Reitora da Universidade Federal de Minas Gerais, Professora Sandra Regina Goulart Almeida; Excelentíssimo Senhor Vice-Reitor, Professor Alessandro Fernandes Moreira; Senhor Presidente da Fundep, Magnífico Reitor da UFMG, gestão 2014-2018, Professor Jaime Arturo Ramírez; Demais autoridades presentes, Conselheiros e Conselheiras da Fundep, dirigentes e ex-dirigentes da Universidade e da Fundação, Prezados colaboradores da Fundep, prezados estudantes e colegas docentes e técnico-administrativos desta Universidade, Senhoras e Senhores,
É uma honra e uma satisfação estar nesta celebração dos 50 anos da Fundep. De fato, há muito a ser comemorado, tanto mais que, num país como o nosso, com uma história marcada por constantes rupturas políticas e instabilidades econômicas, são muito poucas as instituições que alcançam o cinquentenário. Se alguém tiver alguma dúvida sobre isso, basta lembrar que três em cada cinco empresas criadas no Brasil não chegam a completar os primeiros 5 anos de vida, a sua infância. Que dirá 50!
Celebrar meio século de existência de uma instituição é reconhecer que ela atravessou o bom tempo e as tempestades, enfrentou as dificuldades, adaptou-se às mudanças e, assim, forjou sua identidade. Por isso, é natural que este seja um momento de muita alegria para os que estamos aqui reunidos e para todos que, de algum modo, participaram da vida desta instituição.
E, se datas redondas como esta são motivo de festa, elas também nos convidam à reflexão. A Fundep, todos sabem, nasceu em um momento marcado por grandes tensões e desafios para a universidade pública. Os anos 1970 foram, de fato, um período paradoxal para a universidade brasileira. De um lado, havia a consolidação de um sistema nacional de ciência e tecnologia, o fortalecimento da pós-graduação e o crescimento da pesquisa acadêmica. A universidade pública era protagonista nestes movimentos. De outro lado, vivíamos sob um regime autoritário, marcado por restrições às liberdades e por uma concepção centralizadora do Estado. A autonomia universitária, princípio essencial da vida acadêmica, era tensionada por limites políticos e administrativos. A universidade precisava crescer, mas as restrições orçamentárias e o ambiente institucional eram, muitas vezes, asfixiantes.
É nesse contexto que surge a Fundep, em 1975. Sua criação respondeu a um problema concreto: como permitir que a universidade administrasse projetos de pesquisa cada vez mais complexos, com recursos mais volumosos e exigências técnicas crescentes, sem ficar imobilizada por procedimentos administrativos próprios do setor público, mas concebidos para outra realidade? Como fazer frente a uma legislação que, a pretexto de combater desvios e distorções, desconsiderava a natureza peculiar da pesquisa científica, o fato de que nela, ao contrário das atividades rotineiras e previsíveis, estamos lidando com o desconhecido, com resultados e procedimentos que não podem ser inteiramente antevistos?
São questões que, em última instância, dizem respeito a um desafio central para qualquer universidade que aspire à excelência: como criar condições institucionais para que a Universidade alcance seus objetivos? Ou ainda, como fazer valer a sua autonomia — autonomia aqui entendida não apenas como valor abstrato, mas como condição prática para que a universidade possa realizar sua missão?
A resposta a este desafio — a criação da Fundep — não foi o resultado de ato único ou isolado. Como a maior parte das iniciativas bem-sucedidas da Universidade, ela pôde se beneficiar de um conjunto de experiências prévias no âmbito de departamentos e unidades, seja no que diz respeito à gestão de grandes projetos de pesquisa no ICB e no ICEx, seja quanto à experiência de criação de institutos e fundações por outras faculdades.
De todo modo, é importante sublinhar um aspecto que nem sempre é lembrado: não havia, à época, um modelo consolidado de fundação de apoio que pudesse ser simplesmente copiado, nem mesmo normas ou legislação específica que pudessem reger o relacionamento entre a Fundação e a UFMG.
O que se fez ali foi, em grande medida, uma construção institucional original, um arranjo inovador: entidades de direito privado, mas com finalidade pública; estruturas com maior flexibilidade administrativa, mas vinculadas à missão acadêmica da universidade; instrumentos capazes de conferir agilidade à gestão de recursos, sem que esses recursos deixassem de estar orientados por objetivos públicos.
Tratava-se, portanto, de uma invenção institucional, de desenhar uma forma jurídica e organizacional capaz de articular dois universos distintos — o da universidade pública e o dos entes de direito privado —, potencializando o alcance da atuação da Universidade. A trajetória posterior da Fundep demonstrou a força dessa invenção.
Passadas cinco décadas de sua criação, é fácil constatar que a Fundação foi e continua sendo essencial para estruturar um modo de relação entre a Universidade e a sociedade, entre o público e o privado, entre a produção do conhecimento e sua materialização em projetos, programas, obras, iniciativas culturais e ações de inovação. A trajetória da Fundep está entrelaçada de maneira indissociável com a expansão da pesquisa e da inovação, com a consolidação do ensino de graduação e pós-graduação, com o fortalecimento das ações de extensão e dos projetos culturais, com a modernização da infraestrutura universitária.
Perdoem se não menciono números, nem me refiro a cada uma das ações e iniciativas exemplares que atestam o que acabei de afirmar. São muitos os projetos estruturantes, as ações de impacto e as estruturas acadêmicas da UFMG que só puderam existir pelo apoio decisivo da Fundep. Não haveria tempo de nomeá-los um por um e, se ainda assim eu tentasse, certamente incorreria em omissões imperdoáveis. Além disso, várias delas estão apresentadas na publicação que hoje está sendo distribuída, bem como no livro que será publicado ainda neste ano.
Quero apenas acrescentar que nenhuma arquitetura institucional se sustenta exclusivamente em normas e regras. Instituições são feitas, antes de tudo, por pessoas. E o fato é que nenhuma instituição atravessa meio século sem enfrentar conflitos, incompreensões, crises e momentos de incerteza. A história da Fundep e das fundações de apoio não foi simples ou linear. Houve períodos de questionamento público e até de suspeição, de tensionamentos normativos. Houve ocasiões em que a própria ideia de articular universidade pública e fundação de direito privado foi colocada sob escrutínio. Houve momentos em que foi preciso argumentar, defender, contraditar e resistir.
Porque a Fundep não é resultado de circunstâncias favoráveis, mas da perseverança de gerações de dirigentes e colaboradores que souberam enfrentar estas dificuldades e contribuíram para que a Universidade pudesse ampliar sua capacidade de ação, sem abrir mão do sentido de seus princípios e de sua missão. Souberam sustentar o equilíbrio delicado entre flexibilidade e responsabilidade, entre eficiência e compromisso institucional.
Dizia o poeta Emílio Moura que “Viver não dói. O que dói é a vida que se não vive.” Os que nos antecederam não escolheram o caminho mais simples, “a vida que não se vive”. Escolheram, na verdade, o caminho necessário, e não se furtaram aos desafios de seu tempo. Celebrar estes 50 anos é também uma forma de prestar o nosso reconhecimento a estes homens e mulheres.
E, se a celebração da memória nos convoca à gratidão, ela também nos convoca à responsabilidade. Os próximos anos exigirão da Fundep a mesma disposição para aprender, adaptar-se e inovar. Sua construção não está concluída — é processo permanente. A sociedade se transforma, a universidade se transforma, e a Fundep precisará continuar sendo fiel à sua missão e, ao mesmo tempo, aberta ao novo.
Num momento histórico em que vivemos, em que a guerra, a miséria, a fome e o arbítrio estão tão presentes, não quero concluir sem evocar uma palavra de esperança. E talvez seja novamente Emílio Moura, poeta e professor desta Universidade, quem melhor nos ofereça uma imagem para esse momento.
Ele diz:
“Fabrico uma esperança como quem apaga algo sujo num muro, e ali, rápido, escreve: Futuro. (…) Fabrico uma certeza exata para cada instante. A vida não está atrás, mas adiante.”
Celebrar 50 anos é olhar para trás com respeito. É também afirmar que a vida da Fundep não ficou para trás — está adiante.
Não estarei aqui para celebrar seu centenário, mas quero que os próximos 50 anos sejam de contínua construção institucional e apoio à UFMG na busca de sua missão: a produção do conhecimento, a formação profissional e cidadã de seus estudantes, a afirmação dos valores que nos são mais caros — a verdade, a liberdade e a igualdade —, numa palavra, a busca da emancipação humana. É em torno destes objetivos e destes valores que nos unimos nesta experiência que ultrapassa cada um de nós, cada uma das gerações que passarão por aqui.
À Fundep, àqueles que a fizeram e aos que a farão, nossa gratidão e nossa confiança.
Muito obrigado.


