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Durante os últimos 50 anos, Fundep participou ativamente do desenvolvimento da ciência e tecnologia nacional 

De escritório de captação de recursos para pesquisas a plataforma de interface entre universidades e a sociedade, Fundação de Apoio da UFMG se consolidou como referência na gestão de projetos e programas estratégicos para todo o Brasil

Alessandra Ribeiro

Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência no sala da vice-reitoria da UFMG.
A ocasião contou com a participação de membros do Sebrae e da USP. Foto: Foca Lisboa. Dezembro, 1996.

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Há 50 anos, a criação da então Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep), atual Fundação de Apoio da UFMG, foi a alternativa encontrada para equacionar um problema: gerenciar recursos obtidos de agências de fomento nacionais e internacionais e permitir que os pesquisadores pudessem se dedicar à sua própria vocação: produzir ciência. Ao longo de cinco décadas de história, a função da Fundep se ampliou, incluindo atividades tão diversas como contratação de pessoal e administração de obras, passando por compra de insumos nacionais e internacionais, organização de processos seletivos, gestão de cursos e eventos e até a aproximação entre a universidade e o setor produtivo.

A Fundep foi pioneira entre as demais fundações de apoio ligadas às universidades federais mineiras. Antes dela, a Fundação Gorceix, criada em 1960, tinha atuação direcionada à Escola de Minas, precedendo a própria constituição da Universidade Federal de Ouro Preto como tal, em 1969. Entre as mais antigas fundações de apoio universitárias do estado, a Fundação de Apoio, Ensino, Pesquisa e Extensão (Faepe) da Universidade Federal de Lavras foi instituída mais tarde, em 1976, e a Fundação Arthur Bernardes (Funarbe), vinculada à Universidade Federal de Viçosa (UFV), em 1979. 

A criação da Fundep antecedeu até mesmo a existência de uma agência estadual de fomento à ciência e tecnologia. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) foi implementada dez anos mais tarde, em 1985, ano em que também foi criado o Ministério da Ciência e Tecnologia (hoje MCTI) no Brasil. Aliás, como marca das comemorações dos seus 10 anos, coube à Fundep apoiar a UFMG na realização da reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) na qual foi oficializada a criação da Fapemig.

A professora Gilca Alves Waistein assina a ata de criação da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa em fevereiro de 1975. Foto: Arquivo/Fundep.

Fundep e Fapemig: histórias entrelaçadas

Personagens comuns aparecem entre os fundadores da Fundep e da Fapemig – nomes como os professores da UFMG Carlos Ribeiro Diniz e Marcos Luiz dos Mares Guia, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), e Ramayana Gazzinelli, do Departamento de Física. “Com a vinda de todos os pesquisadores e referências de outros estados para participar da reunião anual da SBPC, eles aproveitaram e redigiram a regulamentação que estabeleceu a origem de Fapemig”, lembra o atual presidente da fundação estadual, Carlos Alberto Arruda.  

Ele destaca que, desde sua origem, a Fapemig se valeu da Fundep, como fundação de apoio, no repasse de verbas para a UFMG, universidade que até hoje mantém a posição de maior destinatária de recursos da fundação de amparo estadual. Em 2022, 40% dos projetos aprovados na chamada Redes de pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico com foco em demandas estratégicas contavam com apoio da Fundep, somando a quantia de R$12,7 milhões. Desse total, 37% seria repassado a projetos da UFMG. 

“Trabalhar com uma fundação de apoio profissionalizada confere segurança jurídica para o repasse de recursos públicos pela Fapemig”, destaca Arruda. “A Fundep serviu de modelo para a criação de outras fundações de apoio nas universidades mineiras”, recorda.

Apoio durante o nascimento do sistema federal de C&T 

Quando a Fundep iniciou suas atividades, em 1975, o Brasil já tinha algumas de suas principais agências federais de fomento à ciência. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) foram criados em 1951, na década marcada pela retomada do projeto de construção de uma nação desenvolvida e independente, com o retorno de Getúlio Vargas à presidência da República.  

Naquele momento, pouco depois do final da Segunda Guerra Mundial, os avanços da tecnologia bélica, em especial da energia nuclear, despertaram os países para a importância da pesquisa científica.  

Foi nessa mesma época que ocorreu o movimento de federalização das universidades brasileiras. A então Universidade de Minas Gerais (UMG) foi federalizada em 1949. No ano seguinte, o processo se efetivou nas demais instituições de ensino superior já existentes. Entre elas, apenas a Universidade de São Paulo (USP) permaneceu no âmbito estadual. 

“Com o desenvolvimento das universidades, a partir das décadas de 30 e 40, começamos a ter um locus institucional para viabilizar a pesquisa. É muito difícil fazer isso por iniciativa própria, por isso se faz necessário esse suporte dado pela universidade”, lembra o historiador da ciência Mauro Lúcio Leitão Condé, professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da UFMG.  

Também historiadora, Rita de Cássia Marques, professora aposentada da Escola de Enfermagem da UFMG, explica que, até então, a pesquisa no Brasil estava concentrada em instituições diretamente ligadas ao Estado, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), fundada em 1900, no Rio de Janeiro, e o Instituto Butantan, em São Paulo, que remonta a 1901. “As universidades tinham o papel principal de formação de médicos, dentistas, engenheiros, entre profissionais de outras carreiras. Elas ainda não tinham a missão de fazer pesquisa, algo que entrou aos poucos em sua história”, relata.

Maquete das futuras instalações da Cidade Universitária na Pampulha. Foto: Acervo Exposição Francisco Magalhães – Projeto República.

Sistema de C&T nasce durante regime de exceção

Até 1961, o Brasil já tinha 19 universidades federais. Na primeira metade da década de 1960, ganhou força no País e na América Latina um movimento de intelectuais, cientistas e estudantes em prol da modernização dessas instituições, para atualizá-las em relação ao progresso científico e tecnológico dos países mais avançados. “Generalizam-se, nas universidades, expectativas e demandas voltadas para a elevação dos cursos ministrados e para sua estruturação, visando a abrigar a pesquisa organizada”, registou a historiadora Maria Efigênia Lage de Resende (1938-2024), professora emérita da UFMG, na publicação Fundep 30 anos, de 2005. 

Segundo a autora, de 1961 a 1964, durante o governo João Goulart, a luta pela reforma universitária, conduzida pela União Nacional dos Estudantes (UNE), teve lugar de destaque. Quando se deu o Golpe de 1964, que levou os militares ao poder, as universidades de São Paulo (USP), do Distrito Federal (UDF) e de Minas Gerais (que adotaria a sigla UFMG em 1965), já vivenciavam clima favorável a um processo de reforma interna, valendo-se de relativa autonomia, garantida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1961. 

No entanto, de 1964 a 1967, decretos de racionalização e modernização da gestão pública acabaram por engessá-la. Em 1968, o governo militar instituiu a Reforma Universitária, incorporando à estrutura das universidades os institutos centrais, inspirados no modelo de ensino universitário norte-americano. O objetivo era promover a integração das faculdades e escolas, com o compartilhamento de espaços por diferentes alunos, e enriquecer sua formação com novas metodologias e perspectivas, além de economizar recursos.  

“As experiências de reforma em curso nas universidades são absorvidas pela Reforma Universitária de 1968, expurgadas de seus princípios democratizantes, nacionalistas e de autonomia”, destaca Maria Efigênia no livro que registrou os 30 anos da Fundep. “As relações entre agências de fomento do Estado e a comunidade acadêmica têm de ser construídas num difícil clima de um regime político autoritário”, observa, adiante. 

Estudantes da Faculdade de Medicina cercados por tropas militares em 1968. Foto: Oromar Moreira.

Súbito aumento de recursos torna-se problema

Ainda na década de 1960, mais precisamente em 24 de julho de 1967, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) foi criada como empresa pública vinculada ao Ministério do Planejamento (posteriormente transferida para o âmbito do MCTI, a partir da criação do ministério, em 1985).

Em meio ao processo de expansão da pesquisa nas universidades, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), criado em 1969, ampliou significativamente o volume de recursos federais para a ciência e a tecnologia produzidas nessas instituições. Os recursos captados deveriam ser destinados preferencialmente à implantação de cursos de pós-graduação, à montagem de laboratórios e à compra de equipamentos.  

No mesmo período, entre 1968 e 1969, a UFMG recebeu grande volume de investimentos da Fundação Rockefeller, sediada nos Estados Unidos, e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), para equipar os institutos centrais – somente os departamentos de Química e Física, que viriam a constituir, juntamente com o departamento de Matemática, o Instituto de Ciências Exatas (Icex), receberam, juntos, mais de 500 mil dólares. 

“Aquele volume de financiamento acabou se tornando a solução na forma de um novo problema”, analisa a historiadora Rita de Cássia Marques. “Uma solução para os professores, que queriam fazer pesquisa e para as universidades, onde se desenvolviam os estudos. Mas a administração desses recursos virou um problema, porque não era um dinheiro das universidade. Tratava-se de um recurso específico para determinada pesquisa, então, era preciso ter uma estrutura própria para gerenciá-lo”, explica. 

Diante da complexidade dos trâmites burocráticos das agências de fomento, da necessidade de elaboração de projetos ajustados às linhas de financiamento disponíveis e do compromisso com a prestação de contas posterior, surge a demanda da criação de fundações de apoio no âmbito das próprias universidades. 

“Internamente, o propósito das fundações de apoio seria, em primeiro lugar, atuar com questões de gestão, mas também como facilitadoras, muitas vezes, entre as agências de fomento e os vários programas desenvolvidos pelas próprias universidades”, pontua o historiador Mauro Lúcio Condé. Ele ressalta que, ao longo do tempo, para além do propósito de arrecadar recursos e viabilizar a pesquisa, as fundações tornaram-se, também, uma interface entre os pesquisadores e a sociedade.

Fundep teve antecessoras na UFMG

Antes da criação de uma fundação de apoio à pesquisa que atendesse a toda a Universidade, outras fundações foram criadas na UFMG, com atuação direcionada a determinados institutos e unidades, no início da década de 1970. Foi o caso da Fundação Christiano Ottoni, ligada à Escola de Engenharia, e da Fundação de Estudo e Pesquisa em Medicina Veterinária – atual Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (Fepe) –, que permanecem ativas; além da extinta Fundação de Amparo às Pesquisas Parasitológicas, mantida com recursos doados por professores do Departamento de Parasitologia do ICB. Em 1972, também foi criada a Fundação Universitária Mendes Pimentel (Fump), com atuação focada na assistência estudantil. 

Em 1974, avançou no Conselho de Pesquisa da UFMG a proposta de criação de um escritório de pesquisas autônomo, capaz de atuar com rapidez e eficiência no estabelecimento de contratos. Depois de passar por ajustes, a proposta foi encaminhada e aprovada pelo Conselho Universitário no dia 29 de novembro do mesmo ano. 

Neste processo, a professora Gilca Alves Wainstein, autora do anteprojeto apresentado às instâncias superiores, teve papel decisivo. Doutora em Direito Público, com experiência em administração de projetos e estudos sobre fundações, ela já havia colaborado na implantação do ICB e da Fundação Christiano Ottoni, além de ter liderado a equipe de um escritório de pesquisas no Departamento de Química. Foi, então, designada pelo reitor Eduardo Osório Cisalpino para coordenar os serviços de captação de recursos para a UFMG e nomeada, em 17 de fevereiro de 1975, para o cargo de secretária executiva da Fundep, dando início às atividades da fundação.

Coisa de mulher

Em sua casa, em Campinas (SP), onde morava na companhia de Bernardo Julius – um cão da raça São Bernardo de 7 anos – Gilca Wainstein, a primeira dirigente da Fundep, recebeu a equipe do Jornal Fundep exatos 30 dias antes do seu falecimento. 

As lembranças do processo de criação da Fundep eram vívidas, e ela não escondia o orgulho dos projetos que ajudou a formatar numa época em que o trabalho da Fundep era, sobretudo, de captação. Lembrava-se também das batalhas, muitas vezes acirradas, para fazer parte da Universidade compreender que buscar recursos em outras fontes não era privatizar a Universidade Pública, nem submeter a ciência a interesses privados.

Com um doutorado em Direito Público numa época em que havia poucas mulheres na Universidade, ela contou como comandou o primeiro time Fundep.

Posse do primeiro conselho diretor da Fundep, em fevereiro de 1975.
Foto: Arquivo/Fundep.

Jornal Fundep: Como se deram os primeiros passos da Fundep em termos de projetos e captação de recursos?

Gilca: Os primeiros projetos da Fundep saíram do Instituto de Ciências Biológicas, mais especificamente dos departamentos de microbiologia, bioquímica e fisiologia – que já recebiam verbas da Finep [Financiadora de Projetos]. Nós começamos com o apoio do corpo científico da UFMG e de estagiários, inclusive de outras instituições. Até que fomos em busca de financiadores internacionais: BID, Ford Foundation e Kellogg Foundation. Todos tornaram-se grandes parceiros e foram muito importantes para o fortalecimento da Fundep nos anos seguintes. 

Jornal Fundep: Como a senhora organizou a estrutura para acolher o pesquisador?

Gilca: A vida do pesquisador era infernal. Alguns que já possuíam algum nome fora da UFMG ainda conseguiam migalhas do CNPq. O pesquisador sabia que precisava, mas não sabia o quê precisava. Então, eu fazia o primeiro contato e começava a montar os projetos para eles: o quê, por quê e para quê? Depois, “como você vai fazer isso?”, “quais instrumentos você vai precisar?”… Eu montava, negociava e, então, direcionava uma equipe bem especializada para acompanhar o projeto.

Jornal Fundep: A senhora não foi apenas a primeira dirigente, a senhora integrou a equipe que fez a minuta da criação da Fundep. Por que a senhora decidiu nomear o cargo máximo de Secretaria Executiva, em vez de Presidência, que era o mais comum das estruturas organizacionais da época?

Gilca: Quando eu desenhei a estrutura da Fundep, pensei: se definirmos por Presidência, os homens virão todos pra cima, desejando a posição de presidente. Mas, se o nível hierárquico máximo for uma Secretaria Executiva,  e um cargo de secretária-executiva, ou secretário-executivo, vou conseguir fazer uma gestão sem atritos. Ou melhor, com menores atritos. Você não via, naquela época, um secretário  mesmo que executivo. O nome era coisa de mulher. 

Fundação favorece equilíbrio na crise

Depois de um período de abundância, sob efeito do chamado “milagre econômico” – cujo auge foi em 1973, quando o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro atingiu o patamar de 11% – as universidades brasileiras começaram a experimentar a escassez de recursos.  

O mundo estava sob os efeitos de uma profunda crise econômica: a Organização dos Países Exportadores do Petróleo (Opep) havia elevado em 80% o preço do combustível, em represália ao apoio dos Estados Unidos e das potências europeias à ocupação do estado palestino por Israel, iniciada naquela época. O Brasil sentiu os efeitos com o aumento dos custos das importações, o descontrole do processo inflacionário e a estagnação da economia. 

“A partir de 1979, a diminuição de recursos destinados à pesquisa é nitidamente demarcada na curva de evolução de recursos destinada à pesquisa na universidade pelas agências federais de financiamento”, relatou a historiadora Maria Efigênia Lage de Resende no livro Fundep 30 anos.

Em que pese a conjuntura hostil, ao longo da década de 1980, Fundep e a UFMG estreitaram suas relações e se integraram. A Fundação atingiu equilíbrio financeiro, se informatizou, contratou profissionais capacitados para assessorar a elaboração de projetos, buscar fontes de financiamento e acompanhar a tramitação das iniciativas. Assim, conquistou credibilidade junto à comunidade universitária. 

Em 1986, foi criado o Fundo de Apoio à Pesquisa, correspondente a 30% do superávit anual da Fundep, com o objetivo de apoiar o trabalho de pesquisadores, particularmente de áreas menos prestigiadas pelos órgãos tradicionais de fomento, e de grupos emergentes.

A professora emérita da UFMG Ana Lúcia Gazzola, reitora da universidade de 2002 a 2006 e vice-reitora na gestão do professor Francisco César de Sá Barreto, de 1998 a 2002, conta que seu primeiro contato com a Fundep foi muito antes do Reitorado, como coordenadora do doutorado em Letras, onde ministrava disciplinas de pós-graduação na área de Estudos Literários desde 1978. 

“Naquela época, a área de Ciências Humanas não tinha muito contato com as agências de fomento, e nós concorremos a um grande projeto para compra de equipamentos via Finep. Ganhamos, e foi a Fundep que fez toda a parte operacional e de utilização do recurso”, lembra. 

Mais tarde, quando foi pró-reitora de Pós-Graduação, no período de 1987 a 1992, Gazzola afirma que a UFMG promoveu a primeira autoavaliação completa de uma universidade brasileira em toda a pós-graduação, com fundos captados pelos cursos, utilizados com apoio da Fundep. “Fizemos correções de rumo na avaliação seguinte e todos os cursos subiram de conceito, como resultado desse movimento autorreflexivo, de caráter construtivo”, relata. 

Para a reitora, ao longo de sua história, a Fundação permitiu o crescimento da Universidade e o fortalecimento de seus vínculos com a sociedade nos mais diversos campos, entre projetos de dimensão social, cultural, de transferência de conhecimento, inovação e prestação de serviços. “A Fundep sempre foi esse canal que permitiu a ligação da Universidade com as mais diversas entidades, desde organizações sociais, ONGs a indústrias, empresas e governos”, destaca.

Década de 1990 tem ampliação de escopo de atuação

Prêmio Fundep 2005. Foto: Acervo/Fundep.

Na década de 1990, a Fundep ampliou suas atividades, com a criação de um setor dedicado à gestão de concursos públicos, vestibulares e processos seletivos. Também foram ampliados os serviços prestados à comunidade universitária na área de eventos, incluindo recebimento de inscrições, divulgação, reserva de espaços e hotéis e acompanhamento de serviços gráficos e logísticos.

Em 1992, uma portaria do Ministério da Educação autorizou as fundações de apoio universitárias a atuarem no gerenciamento das atividades dos hospitais de ensino. No ano seguinte, a Fundep firmou contrato de administração dos recursos do Hospital das Clínicas da UFMG – que só passaria a ser gerenciado pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) mais de 20 anos depois, em 2013.

“Em períodos de enorme dificuldade do hospital, a Fundep literalmente bancava as atividades da unidade, enquanto os recursos federais não entravam”, lembra Gazzola. “Houve uma grande crise da pediatria, em que faltavam leitos em Belo Horizonte e em Minas Gerais. O setor de pediatria do HC sempre foi uma referência nacional. A Fundep viabilizou não só a continuidade das atividades do hospital, como também a expansão de leitos”, destaca. 

Em 1998, a Fundep realizou sua primeira ação oficial caracterizada como apoio institucional: a obra de restauração do prédio do Conservatório UFMG, tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha), na avenida Afonso Pena, concluída em 2001. “Nós cravamos a cultura na principal avenida de Belo Horizonte, recuperando o Conservatório não só para uma dimensão de cursos e prestação de serviços, mas também para sua vinculação com a área cultural, na música”, comemora.

Um dos marcos da virada para o século 21, no ano 2000, foi a criação do Fundo Fundep de Apoio ao Desenvolvimento Institucional, que permitia a destinação de 40% dos resultados anuais obtidos pela Fundep para a UFMG. O objetivo inicial era apoiar o Projeto Campus 2000 da universidade, que previa a transferência de unidades sediadas no centro da capital para a cidade universitária, na Pampulha, com a construção de novos prédios no campus. 

“A Fundep viabilizou as obras na Universidade e conseguia executá-las com muita qualidade e economia, com o nosso próprio corpo de engenheiros. Nós conseguimos provar aos órgãos de controle que estávamos construindo melhor, mais rapidamente e de maneira mais barata do que se estivéssemos utilizando serviços externos”relembra Gazzola.

Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Institucional faz UFMG liderar inovação

Posteriormente, o Fundo Fundep de Apoio ao Desenvolvimento Institucional também foi usado para financiar, entre outras ações, depósitos de patentes de pesquisadores da UFMG, um indicador quantitativo e qualitativo da produção científica e inovação tecnológica da instituição. 

A criação da Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica (CTIT) da UFMG, ainda em 1997, disseminou a cultura da propriedade intelectual, a proteção do conhecimento e a comercialização das inovações geradas na universidade, estimulando possíveis parcerias com as empresas, para que as pesquisas desenvolvidas na instituição pudessem chegar à sociedade em forma de novos produtos, processos e serviços. 

A UFMG se consolidou como uma das maiores depositantes de patentes no País. De acordo com o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), desde 1992, a Universidade registrou 1,5 mil patentes no órgão. De 1996 a 2007, liderou o ranking brasileiro de patentes de tecnologia genética, sendo responsável por 27 das 155 patentes da área depositadas por instituições nacionais. Na última década, manteve posição de destaque no cenário nacional ao figurar entre os 10 maiores depositantes. Em 2024, ficou em quinto lugar, com 77 patentes de invenção.  

Por ter sido a universidade brasileira que registrou o maior número de patentes no período de 2010 a 2019, a instituição recebeu, em 2021, o Prêmio de Inovação Universidades, oferecido pela Clarivate Analytics, empresa especializada na produção de análises no campo da propriedade intelectual.

UFMG experimentou grande crescimento como depositante de patentes no período 2010-2019. Imagem: reprodução do site UFMG.

Apoio a projetos de pesquisa de longo prazo habilita FUndep a gerir INCTs

Em 2005, o Ministério da Ciência e Tecnologia lançou o programa Institutos do Milênio, destinado a promover a formação de redes de pesquisa em todo o território nacional, buscando a excelência científica e tecnológica em todas as áreas do conhecimento. Um dos resultados alcançados foi a inserção mais competitiva e integrada da ciência brasileira no cenário internacional. 

O programa foi aprimorado e levou à criação dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), com foco em determinadas áreas do conhecimento, para desenvolvimento científico no longo prazo. Além disso, o objetivo dos INCTs seria promover a formação de recursos humanos, a transferência de conhecimentos, tecnologias e inovações para os setores produtivos e a sociedade, de forma mais ampla, e também a internacionalização.  

“Nós conseguimos coordenar o Instituto do Milênio de Nanociências, que era uma equipe nacional”, lembra o professor emérito da UFMG Marcos Pimenta, do Departamento de Física, então vice-coordenador do instituto, liderado pelo professor Alaor Chaves, do mesmo departamento. 

De 2005 a 2008, Pimenta passou a coordenar a Rede Brasileira de Nanotubos de Carbono, que reunia 40 pesquisadores de oito estados brasileiros. A consolidação desta rede levou à criação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Nanomateriais de Carbono (INCT Nanocarbono), em 2009, sediado na UFMG, com foco na investigação e busca de conhecimentos e aplicações dos nanomateriais de carbono em diferentes campos de atividades. 

Atual coordenador do INCT Nanocarbono, Pimenta destaca que a Fundep teve papel fundamental na gestão de todos esses projetos, desde o Instituto do Milênio, passando pela Rede de Pesquisa de Nanotubos, até chegar à criação do INCT. “Primeiro, nos processos de compra, especialmente de importações, o que agilizou etapas que demorariam muito tempo se fossem conduzidas diretamente do âmbito da Universidade”, diz. “Esses projetos acabaram trazendo para Minas Gerais a liderança no Brasil na área de nanomateriais de carbono e de grafeno”, destaca. 

Em 2019, a UFMG inaugurou o Centro de Tecnologia em Nanomateriais e Grafeno (CTNano), instalado no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC). O CTNano, que também conta com apoio da Fundep, é um centro de inovação voltado para o desenvolvimento de tecnologias que atendam às necessidades do setor industrial, a exemplo do cimento nanoestruturado, que já se tornou realidade no Brasil.  

Com mais de 40 patentes depositadas em nanomateriais, o centro assumiu papel estratégico na interação entre o conhecimento da ciência básica desenvolvido nas áreas de física, química, biologia e bioquímica, e o desenvolvimento de novas tecnologias e aplicações voltadas diretamente às necessidades do mercado, da sociedade e do meio ambiente. 
 
Atualmente, a UFMG conta com 26 INCTs, a maior parte deles apoiada pela Fundep.

Investimento em parque para aproximar Universidade e setor produtivo

O BH-Tec funciona em espaço vizinho ao campus Pampulha, em Belo Horizonte, e congrega 22 empresas e centros de desenvolvimento tecnológico. Foto: Acervo/Fundep.

A inauguração do BH-TEC, em 2012, foi resultado da associação entre a UFMG, a Prefeitura de Belo Horizonte, o Governo de Minas Gerais, a Federação das Indústrias do Estado (Fiemg) e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a partir de 2005. Desde que foi implantado, o Parque Tecnológico tem sido um espaço de conexão da universidade com empresas e o poder público em prol da inovação, com mais de R$ 40 milhões captados para atividades institucionais, R$ 600 milhões em investimentos de empresas e laboratórios residentes, mais de 80 novos produtos e processos desenvolvidos e um faturamento conjunto superior a R$ 2 bilhões. 

Atual CEO do BH-TEC, o professor do Departamento de Ciências Econômicas da UFMG Marco Aurélio Crocco Afonso, presidente da Fundep de 2010 a 2014, lembra que os estudos para a criação do Parque Tecnológico foram desenvolvidos no Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), com financiamento da Fundação que, mais tarde, também concedeu um empréstimo para a associação mantenedora. 

Uma das iniciativas realizadas por meio de parceria entre a Fundep, a Pró-Reitoria de Pesquisa da UFMG e o BH-TEC atualmente é o  Outlab UFMG, programa de extensão criado em 2019 para conectar laboratórios a empresas e indústrias, aproximando a ciência do mercado. Na quarta edição do programa, em 2025, 15 laboratórios escolhidos por meio de edital de fomento iniciaram uma jornada de oito semanas de imersão, na qual pesquisadores da Universidade passam por capacitação em empreendedorismo e gestão, com acompanhamentos individualizados. 

Em 2023, foi criado um Hub de Inovação Multifuncional dentro do BH-TEC, com o apoio da Fundep para sua implantação. O objetivo é implementar um ambiente para a promoção do empreendedorismo de base científico-tecnológica e o desenvolvimento de negócios inovadores. A ideia é promover a aproximação da sociedade com a área de inovação, por meio do acesso e da popularização da ciência, tecnologia e inovação. Além disso, o espaço coworking é usado para o desenvolvimento de redes de relacionamentos, troca de experiências, fomento de ideias e criação de soluções inovadoras. 

Fundação cria empresa para investir em negócios de impacto 

Ainda no âmbito da transferência das descobertas científicas para a sociedade, a Fundep criou, em 2013, a primeira empresa de investimentos mantida por uma fundação de apoio no Brasil: a Fundep Participações S/A (Fundepar) 
 
Trata-se de uma gestora de fundos de investimentos em negócios inovadores com elevado diferencial tecnológico e que promovam impacto social positivo, visando o benefício à sociedade. São mais de 12 anos de experiência em investimento e desenvolvimento de deep techs originadas nas universidades e centros de pesquisa brasileiros, fomentando, dessa forma, o processo de desenvolvimento de empresas de base tecnológica. 

“A Fundepar foi criada para apoiar empresas resultantes de pesquisas da UFMG (spin-offs) e acabou virando exemplo para outras universidades, como a Unicamp e a UFRJ, que se inspiraram no processo”, conta. Ele explica que a ideia é ajudar pesquisadores a criarem negócios a partir das inovações resultantes de seus estudos. “A função social de uma universidade é gerar conhecimento e repassá-lo para a sociedade de várias maneiras: formando pessoas, transferindo tecnologias ou criando empresas com tecnologias da própria universidade”, observa. 

Em 2018, a Fundepar participou da criação do biotechtown, hub de inovação destinado ao desenvolvimento de empresas, produtos e negócios nas áreas de biotecnologia e ciências da vida, especialmente no campo dos diagnósticos in vitro. A estrutura recebe startups em fase de finalização de protótipos e produtos para registro. Em 2025, , ao assumir integralmente a gestão do hub. 
 
Sob a gestão da Fundepar, o BiotechTown estará cada vez mais integrado à UFMG e à produção científica brasileira. “A pesquisa científica de qualidade, no Brasil, é majoritariamente realizada nas universidades e centros de pesquisas, logo queremos que o BiotechTown seja conectado com os pesquisadores e reconhecidos como uma plataforma que catalise os processos de transferência, registro e produção de novas tecnologias”, resume o diretor-executivo, Carlos Lopes.

Nanoscópio desenvolvido na UFMG, com investimento da Fundepar, foi o vencedor do Prêmio Péter Murányi 2024. Foto: Divulgação/UFMG.

Apoio decisivo frente à pandemia 

Os últimos anos certamente serão lembrados pelos desafios impostos pela pandemia da covid-19, iniciada em 2020, causada pela disseminação do coronavírus SARS-CoV-2. A Fundep buscou soluções em captação e gestão de recursos para colocar a UFMG na vanguarda dos esforços de enfrentamento à emergência sanitária internacional. 

Um dos resultados desse esforço foi o desenvolvimento da vacina SpiN-TEC, primeira vacina 100% brasileira a chegar à fase de testes em humanos. A Fundep foi responsável pela gestão de recursos repassados pelos governos municipal, estadual e federal, além das agências de fomento, para pesquisas relacionadas não só ao novo imunizante, como também a outros estudos, focados em testes diagnósticos e possíveis tratamentos, por exemplo. 
 
A vacina é trabalho do Centro de Tecnologia em Vacinas (CTVacinas) – futuro Centro Nacional de Vacinas, cujas obras, também conduzidas pela Fundep, estão em andamento. “A Fundep ajuda nessa rede de financiamento. Uma vez consolidada, o próprio nome da fundação e o trabalho realizado ao longo dos anos é um chamariz para outras oportunidades”, pontua a professora Rita de Cássia Marques, da Escola de Enfermagem. 

A observação é corroborada pelo imunologista Ricardo Tostes Gazzinelli, ganhador do Prêmio Fundep na área de ciências biomédicas em 2002 e atual coordenador do CTVacinas. O pesquisador lembra que, durante a pandemia, a Fundep designou uma equipe que ficou à disposição do Centro. “Nesse período, a Fundação também administrou vários projetos do MCTI, da Finep, que foram distribuídos entre diferentes instituições no Brasil. Inclusive, o ministério preferiu trabalhar com a Fundep, por ser uma fundação mais dinâmica do que as outras”, revela.  

Gazzinelli lembra que as obras do Centro Nacional de Vacinas também estão sob a gestão da Fundep, que ele classifica como “um trabalho exemplar”. Ele ressalta que hoje a Fundação apoia outras instituições de relevância nacional além da UFMG, a exemplo do Instituto Tecnológico Aeronáutica (ITA), e destaca ainda a gestão de hospitais – atualmente, a Fundep gerencia o Hospital Risoleta Tolentino Neves e a Unidade de Pronto Atendimento Centro-Sul, em Belo Horizonte.

O mestrando em biologia João Victor Rodrigues Pessoa Carvalho, de 24 anos, recebeu a primeira vacina totalmente
desenvolvida em solo nacional: a SpiN-TEC MCTI UFMG, imunizante contra Covid-19. Foto: Tacyana Arce.

Edição: Tacyana Arce
Edição web: Marcelo Cardoso