Formado por 30% do superávit primário da Fundação, fundo transferiu, em 39 anos, mais de R$20,1 milhões para projetos de ensino, pesquisa e extensão. Definição estratégica da aplicação de recursos fica a cargo do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe).
Roberta Araújo
Gestores da UFMG e da Fundep receberam coordenadores de projetos na Reitoria em maio para detalhar critériosos recursos que financiarão as 34 propostas selecionadas nas duas chamadas. Foto: Jebs Lima/UFMG.
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Qual seria o ponto em comum entre o desenvolvimento de uma aeronave ultraleve motorizada, em 1989; o estudo antropológico, de 1991, sobre a pré-histórica do Vale do Peruaçú e a construção do Centro de Extensão da Escola de Música da UFMG, em 2001? Todos esses projetos foram financiados por meio do Fundo Fundep, mecanismo que transfere 30% do superávit da Fundação para que a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aplique em projetos de ensino, pesquisa e extensão.
Criado em 1986, na gestão de Marcelo Vasconcelos Coelho, o Fundo Fundep já fez o repasse total de R$ 20.174.550,46 para centenas de iniciativas. Atualmente com duas chamadas em curso, referentes aos superávits de 2023 e 2024, o fundo subsidia 34 projetos, direcionados a hospitais universitários e educação digital.
A criação do fundo foi possível, de acordo com Admir Ribeiro, então coordenador administrativo, porque pela primeira vez a Fundep era superavitária. Paralelamente, aquele era um dos piores períodos de retração de investimentos em pesquisa no País. “A ideia do fundo era apoiar projetos que não tinham lastro para conseguir financiamento fora, para fortalecer um grupo, um departamento, aprovando recursos para esses considerados emergentes”, lembra.
Naquele ano, o investimento foi de Cz$626.626,56 (cruzeiros), conforme registro do Relatório de Gestão, e a iniciativa, então chamada de  Fundo de Apoio à Pesquisa, era unicamente dedicada a projetos científicos. Em 1997, foi rebatizada para Fundo de Apoio Acadêmico, com a proposta de contemplar também os eixos de ensino e extensão. A mudança ampliou o alcance dos recursos, viabilizando, inclusive, a criação de novos cursos de graduação, ou ampliação de turmas, nas áreas de Turismo, Fonoaudiologia, Engenharia Mecânica, Ciências Biológicas, Estatística, Ciências Atuariais e Engenharia de Produção, em Belo Horizonte, além de Agronomia e Zootecnia, no Instituto de Ciências Agrárias, em Montes Claros.
O investimento em ensino não se limitou à graduação. Os recursos do fundo também apoiaram os programas de pós-graduação em Química, Ciências Biológicas, Física, Bioquímica e Imunologia.
Hoje conhecido como Fundo Fundep, teve, ainda, participação na construção do Centro de Extensão da Escola de Música da UFMG, um espaço focado na formação musical de crianças, jovens e adultos, incluindo interessados em ingressar no curso de graduação em música da UFMG. Os recursos do fundo também asseguraram a criação da Rádio UFMG Educativa, inaugurada em 2004, e a compra de equipamentos para ampliação da estrutura da TV UFMG no prédio da Reitoria, em 2006, investimentos que amplificaram a visibilidade das atividades da Universidade para a comunidade e que proporcionaram aos alunos uma vivência de mercado.
Gestão eficiente gera excedente de recursos e amplia apoio à UFMG
O financiamento de projetos por meio do Fundo Fundep só se torna viável a partir de uma gestão eficiente da fundação, que com o superávit anual retorna o recurso para a Universidade. Segundo o gerente de Financeiro e Contabilidade, Ricardo Leite de Andrade, para que a Fundação tenha resultado positivo, é necessário engajamento e empenho de todos os colaboradores.
Ele destaca que o bom resultado não pode ser pontual, “mas perene, que traga sustentabilidade à Fundação. Conseguimos isso com uma boa comunicação, conexão e alinhamento estratégico, otimização de processos e recursos, motivação e engajamento dos times”, pontua.
Mudanças na legislação e nos mecanismos de controle das fundações de apoio, no início do milênio, dificultaram a geração de superávit, motivo pelo qual o Fundo Fundep deixou de fazer chamadas entre 2009 e 2022, quando foi retomado. Para conseguir resultados positivos, destaca Ricardo Andrade, foram necessárias “melhoria na tomada de decisões, valorização dos colaboradores, cultura da inovação e o apoio do Conselho Diretor”, avalia o gestor.
Em maio de 2025, durante reunião com os coordenadores de projetos selecionados a reitora Sandra Regina Goulart Almeida destacou a importância do esforço. “Temos convivido com dificuldades orçamentárias nos últimos anos, mas a Universidade nunca se afastou de sua grande prioridade, que é a de prover condições para o desenvolvimento de projetos acadêmicos estratégicos. O Fundo Fundep, interrompido em 2009 e retomado há dois anos, é um claro exemplo desse esforço, que, como comprovado em edições anteriores, tem forte impacto nas ações de ensino, pesquisa e extensão”.
Pró-reitorias acadêmicas da UFMG destinam recursos do Fundo
Além de um esforço da Fundep em conseguir melhores resultados em sua gestão, o Fundo Fundep depende também de uma política consistente de destinação dos recursos institucionais, à cargo da UFMG. Na época de sua criação, cabia à Pró-Reitoria de Pesquisa fazer a proposição do dispêndio. Atualmente, cabe às quatro pró-reitorias acadêmicas (Pesquisa, Pós-Graduação, Graduação e Extensão) fazer a proposição, que precisa da aprovação final do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe/UFMG), a partir de proposta da Pró-reitora de Pesquisa.
A coordenação do processo de retomada da aplicação dos recursos coube à professora Benigna Maria de Oliveira, assessora da Reitoria. Para evidenciar o novo momento do fundo, o edital de 2022 focou projetos que articulassem pesquisa, ensino e extensão e fossem coordenados por docentes então recém-contratados pela UFMG, visando seu engajamento e o estímulo a ações inovadoras. Foram distribuídos R$984.858,43, resultante dos superávits de 2020 e 2021, para 60 projetos de professores de recém-chegados. A inspiração foi um programa similar que, lançado no final da década de 1990, época de estímulo à qualificação do corpo docente da UFMG, que apoiava os recém-doutores. O programa chegou a ter recursos do Fundo Fundep e depois passou a ser mantido com recursos próprios da UFMG, bem como outros projetos, similares, que também focavam os novos docentes da Universidade.
Com os recursos orçamentários das universidades em queda a partir de 2015, a UFMG deixou de lançar editais. “Nos últimos anos houve uma grande renovação do corpo docente e muitos ingressaram durante o período da pandemia, o que prejudicou o próprio conhecimento de todos os mecanismos de financiamento disponíveis”, explicou Benigna. “Por isso, após discussão com as quatro pró-reitorias acadêmicas, a opção da Reitoria foi pelo fortalecimento do trabalho dos professores recém-contratados”, esclarece.
Novos editais conectam Universidade aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS)
Em 2023, com o edital anterior ainda em curso, não houve lançamento de novas chamadas. Em 2024, a Universidade considerou as iniciativas prioritárias do Plano de Desenvolvimento Institucional da Universidade (PDI) 2024/2029 para o direcionamento do recurso. Foram lançados dois editais, um de apoio a pesquisas desenvolvidas nos hospitais universitários – Hospital das Clínicas e Hospital Risoleta Tolentino Neves – com foco em pesquisa, ensino e extensão; o outro dedicado a projetos de educação digital.
“Educação digital teve um grande crescimento durante a pandemia e nós vimos que poderíamos incorporar muitas experiências importantes e inovadoras. Somado a isso, tivemos em 2023 a sanção da lei que criou a Política Nacional de Educação Digital, então seria também uma forma de aliar o Fundo a uma política pública”, explica Benigna Oliveira. A priorização também alinha-se ao item 4, Educação de Qualidade, dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, elencados pela Organização das Nações Unidas.
Foram aprovados 25 projetos na chamada referente aos hospitais universitários, e nove projetos destinados à educação digital, totalizando um investimento de R$2.094.005,99, somando os recursos de 2022 e 2023.
A docente do Instituto de Ciências Agrárias (ICA), Clivia Carolina Fiorilo Possobom, foi uma das contempladas nessa chamada para implantar um Laboratório de Educação Digital e Interdisciplinar (Ledigi). O objetivo do projeto é oferecer estrutura e suporte para a utilização de tecnologias digitais nas atividades acadêmicas dos cursos de graduação e pós-graduação do ICA, que permita ampliar as competências digitais dos membros da comunidade acadêmica e contribuir com a internacionalização. Foram aprovados R$200 mil para essa iniciativa, que prevê a aquisição de equipamentos de computação, câmeras, microfones, impressora 3D, tela interativa, entre outros.
“Toda a comunidade do ICA será beneficiada com a possibilidade de realizar atividades mais dinâmicas, interativas e inovadoras; de interagir com profissionais de outras instituições através de um ambiente adequado para videoconferências; de produzir materiais didáticos e de divulgação científica diversos; e de promover cursos e oficinas para a capacitação quanto ao uso adequado das diferentes tecnologias”, detalha.
A professora avalia o fundo como essencial para o fortalecimento das atividades acadêmicas, sejam elas de ensino, pesquisa ou extensão. “Os recursos financeiros disponibilizados viabilizam os projetos e permitem que os professores possam atuar em busca da inovação e excelência acadêmicas, que são compromissos da universidade com a sociedade”.
Também é compromisso da Universidade formar profissionais de excelência para atenção em saúde. Por isso, o segundo edital do Fundo Fundep foi voltado à realização de projetos interdisciplinares nos hospitais universitários da UFMG: Hospital das Clínicas e Hospital Risoleta Tolentino Neves, que vivem o desafio de atrair pesquisadores. A demanda foi identificada a partir de pesquisa de especialistas na área de Economia da Saúde vinculados à Faculdade de Ciências Econômicas (Face). A chamada mobilizou docentes das faculdades de Medicina, de Farmácia e de Odontologia, das escolas de Enfermagem, Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional e do Instituto de Ciências Biológicas.
O professor Paulo Márcio Campos de Oliveira, do Departamento de Anatomia e Imagem da Faculdade de Medicina da UFMG, é um dos contemplados, pelo projeto que busca avaliar e otimizar a quantidade de radiação recebida por crianças durante exames de PET/CT, um tipo de exame de imagem muito usado em diagnóstico oncológico. A ideia central é melhorar os protocolos usados nesses exames, para garantir imagens de boa qualidade, com o menor nível possível de radiação – o que é especialmente importante em pacientes pediátricos, que são mais sensíveis aos efeitos da radiação a longo prazo.
“Para a nossa pesquisa e principalmente para o Hospital das Clínicas e para o Centro de Tecnologia em Medicina Molecular da Faculdade, o recurso vem em boa hora, pois é mais uma forma de fomento para a melhoria do atendimento e a prestação de serviço para a comunidade”, afirmou durante a cerimônia de ativação dos projetos.
Também durante a cerimônia, a pró-reitoria de Pós-graduação, Isabela Almeida Pordeus, destacou que os projetos dos hospitais estão ligados a uma diretriz mais ampla relacionada a política pública. “Esse aporte de recursos do Fundo Fundep para os hospitais vai fortalecer a formação de recursos humanos, a geração de conhecimento e a extensão, na perspectiva do ODS 3 [Saúde e Bem-estar] e vai também ao encontro da Resolução do Cepe/2024, que vincula as residências na área de saúde à pós-graduação”.
A reitora Sandra Regina Goulart Almeida, que enquanto professora já teve, ela mesma, projetos aprovados pelo Fundo, destaca a importância do mecanismo para a UFMG. “Temos convivido com dificuldades orçamentárias nos últimos anos, mas a Universidade nunca se afastou de sua grande prioridade, que é a de prover condições para o desenvolvimento de projetos acadêmicos estratégicos. O Fundo Fundep, interrompido em 2009 e retomado há dois anos, é um claro exemplo desse esforço, que, como comprovado em edições anteriores, tem forte impacto nas ações de ensino, pesquisa e extensão”, destacou a reitora, em abril, durante a reunião com os coordenadores de projetos selecionados.
Todos os projetos do Fundo Fundep, bem como o próprio recurso, são geridos por meio do Centro Integrado de Atendimento (CIA) UFMG Reitoria. “Nós estamos sempre alinhados com a UFMG na execução desses projetos e damos todo o apoio ao professor beneficiado para que os recursos sejam utilizados em conformidade com os editais. Fazemos a gestão de ponta a ponta e, posteriormente, a prestação de contas para a Universidade”, explica a coordenadora da área, Ágatha Dornelas.
Edição: Tacyana Arce
Edição web: Marcelo Cardoso


