Notícias

Pandemia testa capacidade da Fundep no apoio à UFMG

Como uma emergência sanitária sem precedentes obrigou a Fundação a se reinventar para captar recursos, importar insumos urgentes, articular laboratórios à serviço da sociedade e apoiar a UFMG no desenvolvimento da primeira vacina 100% brasileira.

Marcelo Cardoso

O mestrando em microbiologia João Victor Rodrigues Pessoa Carvalho foi o primeiro voluntário a receber a dose teste da Spin-TEC, vacina 100% brasileira, desenvolvida por cientistas da UFMG e da Fiocruz, em novembro de 2022. Foto: Reprodução/Transmissão TV UFMG.

Índice

Quando a pandemia de covid-19 atingiu seu ápice e impôs um cenário de escassez global nos serviços de saúde, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) assumiu protagonismo no apoio à saúde pública e no avanço científico. O sucesso dessa força-tarefa dependia, porém, de uma gestão administrativa ágil, capaz de lidar com a burocracia em tempo recorde. A relação com a Fundep viabilizou as ações mais urgentes da Universidade durante a crise sanitária.

“A UFMG foi instada pela sociedade a enfrentar, com urgência, a situação, e demandou da Fundep um plano estratégico para a pronta resposta”, relembra o presidente da Fundep, professor Jaime Arturo Ramírez. Para a reitora Sandra Goulart Almeida, o apoio foi essencial: “Não teríamos como enfrentar aqueles momentos sem a presença da Fundação ao nosso lado o tempo todo”.

A corrida contra o colapso: Colabore e a crise global de insumos 

No início de 2020, unidades de saúde de Belo Horizonte vinculados à Universidade — Hospital das Clínicas (HC), Risoleta Tolentino Neves e a UPA Centro-Sul — viram seus estoques de insumos despencarem diante da explosão de casos de covid-19. Ao mesmo tempo, o mercado mundial entrou em colapso. Itens básicos, como máscaras e luvas, desapareceram das prateleiras ou passaram a ser comercializados por preços exorbitantes.

Localizado no bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte, o HC-UFMG é referência no atendimento de média e alta complexidade, oferecendo serviços 100% pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Foto: Divulgação/Faculdade de Medicina da UFMG.

A resposta foi o lançamento da campanha de financiamento coletivo Colabore Hospitais UFMG, uma parceria entre a Universidade, Fundep e o Instituto dos Advogados de Minas Gerais (IAMG). O engajamento da sociedade foi rápido: em menos de um ano, a iniciativa bateu a meta e arrecadou R$ 6,11 milhões, mobilizando mais de 2,5 mil doadores.

Coube à Fundep a gestão completa desse montante. A agilidade executiva da Fundação permitiu a aquisição rápida de R$ 3,72 milhões em equipamentos hospitalares (incluindo monitores multiparamétricos e ventiladores pulmonares) e mais de R$ 721 mil em materiais médicos e itens básicos de proteção. Os recursos também permitiram ampliações estruturais vitais, como a abertura de novos leitos semi-intensivos na UPA, uma ala de CTI no HC e uma ala isolada para mães infectadas no Risoleta Neves.

CooLabs ampliou capacidade de diagnóstico  

A urgência imposta pela pandemia também demandava velocidade na testagem da população. Para ampliar a capacidade de diagnóstico em Minas Gerais, a UFMG criou, em julho de 2020, o CooLabs covid-19, integrando as estruturas e corpos científico e técnico de sete diferentes laboratórios do Instituto de Ciências Biológicas e das faculdades de Medicina, Farmácia e Veterinária da UFMG, além do Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC). O projeto recebeu apoio financeiro da Secretaria de Ensino Superior do Ministério da Educação e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Mestrandos e doutorandos interromperam suas pesquisas para dedicar-se à testagem do coronavírus. Foto: Divulgação/CooLabs.

Enquanto os cientistas assumiram a frente de testagem, a Fundep ficou responsável pela captação dos contratos, gestão financeira, processamento das compras de reagentes e o apoio logístico. Até novembro daquele ano, a rede havia realizado mais de 65 mil testes RT-PCR, respondendo por mais de um terço de todos os exames desse tipo feitos no estado. A excelência da iniciativa rendeu ao CooLabs o 2º lugar no Prêmio Boas Práticas de Gestão das Fundações de Apoio, concedido pelo Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies).

O legado da vacina brasileira 

Se a primeira fase da pandemia exigiu respostas emergenciais, os anos seguintes consolidaram a UFMG, juntamente com a Fiocruz, como pilares da soberania científica nacional com a SpiN-TEC. Desenvolvida no CT Vacinas, trata-se não apenas da primeira vacina brasileira contra a covid-19, mas do primeiro imunizante feito 100% com tecnologia nacional.

Associação UFMG e Fiocruz, com apoio Fundep e financiamento público, deu origem à vacina brasileira Spin-Tec, já testada em humanos. Foto: Divulgação/CT Vacinas.

A Fundação apoiou e geriu repasses variados: cerca de R$ 33 milhões da Prefeitura de Belo Horizonte, R$ 20 milhões de emendas parlamentares, R$ 30 milhões oriundos do acordo do Estado com a Vale pela tragédia de Brumadinho, além de investimentos de agências como a Fapemig. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) garantiu R$ 140 milhões em recursos por meio da RedeVírus e apoiou todas as etapas de testes, desde os ensaios pré-clínicos até a fase clínica 3, estágio final aprovado no fim de 2025, com estimativa de 5,3 mil voluntários em todo o Brasil. A expectativa é que a vacina seja disponibilizada para a população em 2027.

Futuro em construção 

O sucesso da SpiN-TEC e do trabalho do CT Vacinas, que atua provisoriamente nas dependências do BH-TEC, pavimentou um passo ambicioso da ciência mineira recente: a criação do Centro Nacional de Vacinas (CNVacinas).

Para abrigar o projeto, uma sede definitiva está sendo erguida pela própria Fundep em um terreno de 4.400 metros quadrados, vizinho ao BH-TEC, na região da Pampulha. Com obras iniciadas no fim de 2022, o prédio sustentável de cinco andares e cerca de 6 mil metros quadrados abrigará áreas de pesquisa, laboratórios avançados, ambulatórios e recepção para pacientes de testes clínicos. O início das operações está previsto para 2026.

O projeto é fruto de um investimento de R$ 80 milhões (R$ 50 milhões do MCTI e R$ 30 milhões do Governo de Minas Gerais).

Sede do CNVacinas está sendo construída em terreno anexo ao BH-TEC, na região da Pampulha, em Belo Horizonte. Foto: Marco Bayma/Fundep.

Operação remota: a Fundep nos bastidores para a pesquisa não parar 

Enquanto atuava no apoio logístico às demandas da Universidade, a própria Fundep precisou adaptar suas rotinas corporativas. Com o avanço da pandemia, a instituição migrou sua operação para o modelo de home office, com o objetivo de garantir que a gestão administrativa e financeira dos projetos de pesquisa não sofresse descontinuidade. “Todo o crédito na adaptação para o modelo remoto foi da gestão anterior, do professor Alfredo [Gontijo de Oliveira]. Foi um processo que se deu de um modo muito rápido, o que só reforçou a robustez da Fundep”, destaca o presidente Jaime Ramírez.

Durante o período de trabalho remoto, a Fundação investiu em ferramentas de comunicação interna para fornecer a infraestrutura necessária ao desempenho das equipes. A instituição também disponibilizou plantões psicológicos em grupo, visando o cuidado com a saúde mental dos colaboradores frente aos desafios do isolamento social.

De acordo com Jaime Ramírez, que assumiu em plena pandemia, sua prioridade foi, num primeiro momento, garantir a qualidade no atendimento virtual e, ao final do período de distanciamento social, trabalhar no resgate da integração das equipes. “Cerca de 50% do quadro de colaboradores havia sido renovado durante a pandemia. Grande parcela de colaboradores não se conhecia, não sabia como a Fundep realizava atividades. Além de criar condições para que essas pessoas retornassem para o prédio, precisávamos retomar a cultura da Fundep. Esse foi o nosso maior desafio”, avalia.

Para organizar essa transição, o retorno às atividades na sede da instituição ocorreu de forma escalonada. Inicialmente, a Fundação adotou o modelo 3×2 (três dias presenciais e dois remotos). Em seguida, a jornada passou para a escala 4×1, até a completa retomada do trabalho em formato totalmente presencial.