História da Fundação coincide com processo de institucionalização, evolução e ampliação da prática extensionista na UFMG
Alessandra Ribeiro e Marco Bayma
Comunidade Yanomami é foco de ações multidisciplinares de extensão da UFMG desde 2016.
Foto: Victor Moriyama/Instituto Socioambiental.
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Da proteção à saúde de indígenas yanomamis no estado de Roraima à reparação de atingidos pelo rompimento de barragens de mineração em Minas Gerais: a abrangência e a diversidade de programas e projetos de extensão que contam com suporte da Fundação de Apoio da UFMG (Fundep) é grande. Somente em 2024, 339 projetos foram gerenciados pelo Centro Integrado de Atendimento a Cursos, Eventos e Atividades de Extensão (CIA Caex) da Fundep, setor responsável pela gestão de iniciativas extensionistas.
Além dos projetos, a Fundep faz a gestão administrativa e financeira de cursos, atividades e eventos de extensão da UFMG e de outros importantes centros de ensino e pesquisa do País. São cursos de formação, capacitação e qualificação, atividades esportivas e culturais, e eventos científicos e acadêmicos de diversas áreas do conhecimento.
Em 2024, mais de 16 mil matrículas foram realizadas em 325 cursos ofertados por meio da Fundep. O valor executado em ações de extensão foi de R$ 15 milhões. “Os resultados alcançados refletem a relevância da extensão universitária dentro da Fundep”, destaca a coordenadora da CIA Caex, Daniele Pedrosa.
Institucionalização da Fundep e da Extensão são contemporâneas
Domingo no Campus, projeto de extensão da UFMG, reúne famílias para atividades
de lazer ao ar livre no Campus Pampulha desde 2015. Foto: Comunicação Proex/UFMG.
Em 1975, a criação da Fundep – então Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa – coincidiu com o movimento de institucionalização da extensão na UFMG. A Pró-reitoria de Extensão (Proex) da Universidade foi criada pouco depois, em 1976. Mas as ações nesse âmbito começaram antes. Após a federalização da UFMG, em 1965, a Coordenadoria de Extensão, primeiro órgão formal voltado às atividades extensionistas na UFMG, foi criada em 1967. No ano seguinte, a Lei da Reforma Universitária instituiu a obrigatoriedade da extensão nas universidades brasileiras. O Conselho de Extensão da UFMG, que antecedeu a Proex, foi criado em 1969.
A professora titular do Departamento de Pediatria da UFMG, Benigna Maria de Oliveira, que foi pró-reitora de extensão da Universidade (2014-2018), lembra que a Fundep surgiu justamente no contexto de aproximação da instituição com a sociedade. Segundo ela, com o passar dos anos, a extensão universitária evoluiu e foi ressignificada no ambiente acadêmico.
“No contexto de discussão do compromisso social da universidade pública, nos anos 1980, avançamos na concepção da extensão, que não toma mais, como principal, o caminho unidirecional da universidade que produz, detém o conhecimento e transmite à sociedade”, observa. “Nós passamos a ter concepções de extensão que reconhecem a importância de haver espaço de diálogo, de troca de saberes com outros setores da sociedade, partindo do princípio que chamamos de interação dialógica”, conclui.
Fundep evoluiu para atender Tríade Universitária
Professor Glaucinei Rodrigues, pró-reitor de Extensão
da UFMG. Foto: William Araújo/Minas Faz Ciência.
Em 1986, foi criado o Fórum de Pró-reitores da Extensão das Universidades Públicas Brasileiras (Forproex), instância para discussão dos desafios comuns da área nas instituições de ensino superior. A Constituição de 1988 também foi determinante ao instituir, no artigo 207, a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão – os três pilares da atividade universitária.
A Fundep contribuiu para a consolidação da extensão na UFMG, com a expansão do Fundo Fundep (formado por 30% do superávit contábil da fundação), até então destinado exclusivamente a projetos de pesquisa, passando a beneficiar todas as áreas acadêmicas, a partir de 1997. Em 1999, o Plano Nacional de Extensão, conduzido pelo Ministério da Educação e amplamente discutido pelo Forproex, foi lançado.
A partir dos anos 2000, a institucionalização da extensão foi ampliada nas universidades, com a implementação da Política Nacional de Extensão Universitária, de 2012, e a Resolução nº 7 de 2018, do Conselho Nacional de Educação, que estabeleceu o mínimo de 10% da carga horária dos cursos de graduação para atividades extensionistas.
Atual pró-reitor de Extensão da UFMG, o professor Glaucinei Rodrigues, do Departamento de Tecnologia do Design da Arquitetura e do Urbanismo da Escola de Arquitetura, destaca a valorização da dimensão formativa da extensão. “A inserção curricular da extensão foi uma segunda revolução na universidade. A primeira foi a Lei de Cotas, de 2012. Passamos pela fase do assistencialismo, depois da prestação de serviços e, agora, estamos na parte de dimensão formativa. Acredito que alcançaremos esta nova fase, em que o eixo ensino, pesquisa e extensão seja um só”, prevê.
Escala ampliada
A professora do Departamento de Psicologia da UFMG Cláudia Mayorga, que também foi pró-Reitora de Extensão da UFMG (2018-2024), destaca a centralidade da Fundep nas ações de extensão na Universidade. “Ao longo de toda a história, a Fundep viabilizou a atuação da universidade em uma escala muito maior, com transparência, agilidade na execução de projetos, na interface com as regulamentações específicas de cada minúcia das atividades”, analisa.
Mayorga recorda que, em 2015, quando aconteceu o rompimento da barragem de rejeitos de mineração da Samarco na cidade de Mariana, a UFMG colaborou no enfrentamento das consequências do desastre. Em conjunto com a sociedade e órgãos competentes, a Universidade criou o Programa Participa UFMG, com o intuito de organizar e mobilizar a comunidade acadêmica para atuar de forma interdisciplinar no auxílio à região atingida.
Diversos projetos de extensão foram criados dentro do programa, demandando também a captação de recursos. “Sem o apoio da Fundep, o Participa não teria acontecido. Posteriormente, ele foi reconhecido socialmente e premiado por sua importância”, ressalta. A partir dessa experiência, após rompimento de outra barragem, em 2019, a UFMG foi convidada para atuar como perita no caso, o que deu origem ao Projeto Brumadinho.
Outra iniciativa de grande relevância social que contou com apoio da Fundep, em 2024, foi o Programa de Extensão em Direitos Humanos, Educação e Saúde Yanomami, que envolve a Proex, a Faculdade de Educação e as escolas de Arquitetura e Enfermagem da UFMG, além dos ministérios dos Povos Indígenas e da Educação. O objetivo era aprimorar o diálogo com populações indígenas Yanomami e Ye’kwana, promovendo sua qualidade de vida em territórios do estado de Roraima.


